Bigodes

Quando dois velhos amigos se encontram há prazer em comentar reminiscências que para outros, ou até para eles mesmos isoladamente, seria algo enfadonho e fora de ritmo. Joaquim e Bino fazem isto agora, rindo exacerbadamente dos dias em que levantavam as saias das pequenas e iam-se correndo para o banheiro do colégio. Peraltices, peraltices…
“Conta-me, sujeito, o que fazes com tão largos bigodes”, indagava Bino. “Eu, Bino, estou de trabalhador no governo, lento como vem a calhar a um trabalhador do governo e ortodoxo como cabe a um homem com bigodes”. Bino sorriu com a autocrítica de Joaquim, e falou de si.
“Continuo a levantar saias, meu bom. Vivi um tempo em França, um outro em Moçambique, e voltei ao Brasil num surto de banzo”. “Sem dúvida, há mulher nesse teu ciganismo…”, soltou Joaquim. “Oh, e como…”, riu Bino.
Depois de mais duas ou três palavras, e alguns “marquemos para nos ver com calma”, “tu estás mais magro”, “como andam fulano ou cicrano”, e expressões equivalentes, despediram-se. No futuro, Joaquim elegeu-se deputado, nem bom nem mau, escondido em dois mandatos, tempo suficiente para ganhar o necessário e recolher-se como fazendeiro. Já Bino, após saias e saídas para horizontes novos, resolveu criar bigode – sem a lentidão de Joaquim, haja vista não ter conseguido um cargo no Governo.











