Palavra do dia: ida.
Digitava freneticamente textos eróticos enquanto bebia uísque. Dose extrovertida, com três pedras de gelo. Era o tiquetram do teclado acompanhando o tlimtlenque dos cubos nas paredes do copo. Era tudo que ela não era aqueles contos – uma noviça material, boba e mal vestida. Mas tomava uísque, e escrevia textos eróticos.
Braz (3)
Braz geralmente chegava a seu lar – sem companhia outra senão um gato preguiçoso com quem conversava melhor do que com gente – e punha as pernas cansadas sobre uma caixa de madeira que ficava sempre à frente da poltrona. Poltrona destas de papai, diga-se. Era um dos notáveis momentos de reflexão, onde matutava sobre as coisas que vira na rua naquele dia (geralmente as mesmas, ou outras previsivelmente decorrente das mesmas).
Ali encurvava sua coluna num ângulo perfeitamente confortável, dum modo que os especialistas do jornal diziam ser prejudicial, mas, vá lá, pensava Braz, eis o juro a ser pago por algum prazer nesta vida. Além do mais, nada muito além da feiúra podia lhe trazer aquela curvatura nas costas. Dane-se.
Braz (2)
Como curtia caminhar sob a chuva (!), naturalmente, protegido por seu guarda-chuva enorme e preto tanto quanto sua capa. E botas, dessas que usam os motociclistas.
Braz sentia na chuva algo em comum com seu espírito geralmente nublado. Braz sentia na chuva algo em comum com seus olhos geralmente molhados (apesar dessa comparação sempre ter lhe parecido sobremaneira piegas).
Braz (1)
Braz era um sujeito de alma moribunda e barba por fazer. Boêmio incansável, tinha o costume de fechar os bares das redondezas do apartamento em que morava – um imóvel úmido e amarelado. Era sempre o último a sair, não por muita militância nas discussões de mesa de bar, mas porque dedicava-se ao estudo dessas discussões, e só quando era intimado a falar é que falava (apenas para satisfazer os bêbedos, ou para pagar o quinhão de conversa necessário à presença num boteco).
Não aceitava que lhe enchessem o copo de cerveja em mais da metade, “para não esquentar”, dizia. Também possuía a habilidade de abrir a cerveja na mesa ou no dente, sem chave (abridor, para os polidos). Como se vê, de fato, era Braz rico em algum conhecimento boêmio.
Bigodes

Quando dois velhos amigos se encontram há prazer em comentar reminiscências que para outros, ou até para eles mesmos isoladamente, seria algo enfadonho e fora de ritmo. Joaquim e Bino fazem isto agora, rindo exacerbadamente dos dias em que levantavam as saias das pequenas e iam-se correndo para o banheiro do colégio. Peraltices, peraltices…
“Conta-me, sujeito, o que fazes com tão largos bigodes”, indagava Bino. “Eu, Bino, estou de trabalhador no governo, lento como vem a calhar a um trabalhador do governo e ortodoxo como cabe a um homem com bigodes”. Bino sorriu com a autocrítica de Joaquim, e falou de si.
“Continuo a levantar saias, meu bom. Vivi um tempo em França, um outro em Moçambique, e voltei ao Brasil num surto de banzo”. “Sem dúvida, há mulher nesse teu ciganismo…”, soltou Joaquim. “Oh, e como…”, riu Bino.
Depois de mais duas ou três palavras, e alguns “marquemos para nos ver com calma”, “tu estás mais magro”, “como andam fulano ou cicrano”, e expressões equivalentes, despediram-se. No futuro, Joaquim elegeu-se deputado, nem bom nem mau, escondido em dois mandatos, tempo suficiente para ganhar o necessário e recolher-se como fazendeiro. Já Bino, após saias e saídas para horizontes novos, resolveu criar bigode – sem a lentidão de Joaquim, haja vista não ter conseguido um cargo no Governo.
Joice

Em termos de estudo, Joice sempre esteve aplicada e destacada – uma pequena esforçada, por assim dizer. Aos 12 conheceu Quixote, debutou com Dostoiévski sob o braço, firmou a maioridade ladeada de Euclides da Cunha.
“Ora, mas que sentido há em viver letras?” – perguntou-se lá pelos 20.
Joice, hoje aos vinte e pouco, está puta.
Quando visitei Jaçanã

Das grandes dificuldades da minha infância, lembro-me especialmente de não conseguir prender tampinhas de cerveja nos dedos. Sim, no bar em que vivi boa parte dos meus divertimentos de menino, como um observador e analista das relações boemias, era prática o amassar as tampinhas e prendê-las nos dedos para fazê-los de baquetas, cujo tambor era não mais que a própria mesa de bar, daquelas de metal, salpicadas de ferrugem e cheirando a cerveja derramada.
Enquanto a fraqueza nos dedos não me permitia a façanha, ouvia atento músicas belíssimas, ao mesmo tempo que simples e misteriosas. Entendia pouco do entusiasmo em que eram entoados os versos de amor nos sambões, onde mulheres de quartos generosos dançavam tão generosamente com os ébrios da mesa. Àquela época, de pouco mais ou menos que uma década na idade, entendia pouco ou nada de amor, que os coroas do samba não se fartam de cantar.
Lá conheci Jaçanã, a moradia que Adoniran Barbosa imortalizou em sua canção Trem das 11. Trata-se do hino da boa desculpa que os mancebos dão a suas amadas, que, verdadeira ou falsa, serve à natureza menos dedicada do homem, notadamente o boêmio – o que não significa, de modo algum, minoria de amor (por prova, vejam os cabras que despedem-se de sua dama apenas para chorar a saudade dela num botequim).
Inda hoje ressoa em meus ouvidos o “quais, quais, quais, quais, quais, quais”, o “quaiscalingudum”, e todas essas onomatopéias que Adoniran usou, que tem a mesma origem da minha tampinha amassada: ambas querem suprir a necessidade do instrumento, ante a premente vontade de cantar um saudoso samba. São improvisos que tem um charme ausente na música bem elaborada, sem desmerecê-la, obviamente.
Hoje em dia já não sinto dificuldade em amassar tampinhas, e muitas vezes canto sambas mal entendidos por meninos que chegam ao bar para comprar guloseimas.
Vulgares e Imorais

Chegou à casa dela após alguns dias de recesso: as férias entre o dia que descobrira a traição e o pleno arrependimento da descoberta. Sim, pois apesar do erro ter sido cometido por ela, há paixões que suplantam qualquer parâmetro social, ético, moral. Com ele era isso, danassem-se a opinião e os valores, que estavam mais dentro dele do que em outro canto, já que ninguém sabia de tudo certamente.
Entrou, falou à irmã e encontrou-a em camisola, deitada na sala. Eram as mesmas pernas, os mesmos pés e dedos, a mesma boca e seios que deixara emprestar a outro, supunha ele.
Entre a suposição e a prova só houve ela levantar-se e dizer: “perdão”. Ali no sofá, ao lado do controle remoto, deitou-se ela, encurvou-se ele, e sob a emoção do risco de serem flagrados, provaram-se o quanto de vulgar e imoral tinham.
Michel Melamed
O poeta Michel Melamed é entrevistado por Marieta Cazarré (UnBTV):
“Endenter o experimental como a busca de originalidade, a busca por uma linguagem própria, por um estilo. A liberdade, enfim. Olhando a História da Arteem retrospectiva, acho que os principais momentos, ou o que se entende como História da Arte, é feito no que se entende em algum momento como experimentação”
Ele fala sobre arte, cidadania etc…
“Em linhas gerais, eu acredito muito, sim, nessa não-linearidade, não porque a linearidade seja ruim, mas talvez haja um predomínio dessa linguagem na maioria das mídias, seja televisão, teatro… A gente sempre, ou na maioria das vezes, tem se deparado com ela (a linearidade). E ela pode ser muitas vezes — eu ia falar a palavra perigosa, porque eu estou com televisão na cabeça. No caso da tevê, por exemplo,ela pode ser duvidosa, porque a linearidade muitas vezes trabalha com persuasão. Então exemplos claros na televisão são uma novela ou um noticiário que está dando um texto e aí passa uma música que sublinha esse texto, com um tipo de enquadramento… Quer dizer,tudo te leva a uma única compreensão”.
Quem clicar na imagem assiste toda a entrevista.
Noite de Carnaval
Aquele não tinha sido mais um carnaval. Suas amigas pilheriavam, diziam que todo aquele entusiasmo fazia parte de algo que chamavam de paixão. Mas não era isso que ela entendia. Após alguns coquetéis, pulos e suor, após dois ou três beijos de língua em desconhecidos transeuntes (ou danceuntes, já que antes de se transitar, nos carnavais, dança-se), encontrou aquele sujeito antigo, de infância, desses que possuem vaga quase que garantida em situações desobstruídas — e quais são as obstruções dos carnavais?

O antigo não hesitou. Beijou-a, cheiro-a no cangote, roçou, se misturou em seu suor e calor momesco. Importantíssimo salientar que em carnavais as coisas não acontecem com qualquer método, antes, se viabilizam através de sugestões gestuais, pistas, aparências mínimas presentes nas expressões e nos olhares. Assim se iniciou o contato da nossa foliã com seu antigo. Um olhar e um sorrizinho sugestivo, no máximo.
As amigas excitaram-se com o encontro (todos devem saber que uma peculiaridade dos carnavais é não apenas praticar despudores, mas observar as transgressões sexuais alheias).

Não vou cansar o leitor com minúcias desnecessárias. Digo apenas que a expressão “minha colombina” ficara ecoando na mente de nossa personagem durante todo o dia seguinte. Na ocasião em que fora dita, num quartinho vagabundo de hotel (vagabundo e romântico), a moça segurava os lençóis da cama que rangia, lençóis molhados de suor de ambos, que, aliás, tornara-se apenas um, líquido com o ingrediente da volúpia.
“Minha colombina”, ela repetia para as amigas. “Paixão”, elas retrucavam. Uma noite de carnaval, certamente. Passageira, transitória, fulgaz, esquecível — como todas as noites de carnaval.
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