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A docência e o meretrício

Uma amiga disse-me que teve um namorado belo de corpo, embora feio de espírito. Não creio muito nesta bipartição, já que alguns elementos dão indício de certa unidade interdependente entre “corpo” e “alma”. Um belo olhar, por exemplo, carece da matéria orgânica dos olhos, e de certa orientação intelectiva para se manifestar. O que chamam “elegância” é nada menos que este conjunto de caracteres. Se existe corpo e espírito, ambos se influenciam mutuamente, não havendo possibilidade de um espírito ser o mesmo sem tal corpo, nem um tal corpo ser o mesmo sem um tal espírito. Mas admitir isto seria provocar o entendimento de que não há diferença entre a venda do corpo (o meretrício) e a venda do espírito (a docência, por exemplo). Grande dificuldade – ao menos cultural.

Expôs o pescoço como que pedindo o beijo, o lábio que atentasse para aquele calor – por isso pôs o cabelo pendurado na orelha. Teve o que quis: lábios e pontas de língua e dentes, e um pouco de saliva para assentar a penugem do pescoço. A mesma que se manifestava próximo ao umbigo.

o quê?

sempre isto se atualiza à madrugada: trata-se de um cometimento tão bárbaro e grave quanto os mais graves e bárbaros crimes. homicídio: dos meus pudores intelectuais.

As intrigas femininas são proporcionalmente irracionais à compulsão sexual masculina.

uma cintura sem calcinha

A surpresa de enveredar a mão entre a coxa e o vestido, e sentir uma cintura sem calcinha.

femme adultère

agora, consumado o adultério, nenhuma reflexão roçava-lhe o arrependimento. em verdade, foi bem como visitar um país estrangeiro, explorar um campo virgem de seus pudores. uma conquista, pois.

o sexo molhado. ah.

Beijo

Passava os dedos entre os fios do cabelo dela quando no beijo – tendo pousado naquela nuca quente a palma da mão. Ora ela deixava os lábios indolentes, frouxos, à deriva e ao comando da outra língua. Ora quase enfurecia de tesão, e mordia os lábios que a pouco eram determinantes.

Uh

Fode, amor!

o hábito da sedução

mulher cretina
colhe retina

onomatopeia é uma centopeia a jogar ono-um.

Há no sexo uma agressividade inevitável, elementar. O carinho, no sexo, é uma semiagressividade: o tapa é o toque menos sutil, que virará carícia. O arranhão, no sexo, é o alisar em que a unha se intromete.

oh… não me venham dizer que sujeitos que possuem pêlos na orelha não são ranzinzas.

cuisine et le sexe

A culinária transcende o encher-se de comida. Um bom prato é um bom ritual, tem sabor, cheiro, textura, cor, arrumação. E há, naturalmente, o elemento individual: há quem goste ou não de salmão. Há quem goste ou não de beterraba.

E não é que “comer” tem algo da  filosofia presente no sexo?

Chupar é uma palavra feia, considero. Porém, é um ato exclusivo ao homem, e, por isso, superior. Ora… pensar é exclusivamente humano, e por tanto, é nobre.

Há quem não se aproveite muito de qualquer dessas faculdades eminentemente humanas, há quem veja mais prazer em uma ou n’outra.

Claro… “Chupar” aqui não se refere a frutas ou doces, nem “pensar” se refere a Paulo Coelho, bobos.

Sobre calcinhas e sapatos

O que o homem expressa com os sapatos a mulher expressa com as calcinhas, me dizem. Circunstancialmente ou não. Eis a dificuldade em devassar a alma feminina. Salvo, naturalmente, as exceções – voluntárias ou não.

Uhn… Suspeito não ser esta uma analogia tão fundada.

não fossem as mentiras, que seria da mulher?

Já o lamber, ahn…

Sem mãos, à massa dos animais restou a boca como centro de suas manifestações de afeto e desprezo. O ditado nosso que diz “a mão que afaga é a que bate” aos animais soa como “a mandíbula que lambe é a que morde”.

Os humanos amantes, esses engenhosos peraltas que costroem formas de prazer, subvertem essa lógica, e usam, por exemplo, a mordida em caráter afetuoso – mordiscadazinhas que acendem as vontades e exaltam a libido. O amante, ao morder, diz: “querida, poderia utilizar tal recurso para ferir-te, entretanto, converto-o em amorosa carícia”.

Já o lamber, ahn… Isso é coisa universalmente carinhosa em todas as espécies.

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"No Museu Dos Vencidos estão reunidos todos os papeizinhos com os discursos de agradecimento não lidos pelos perdedores de todos os prêmios."
Michel Melamed