Há no sexo uma agressividade inevitável, elementar. O carinho, no sexo, é uma semiagressividade: o tapa é o toque menos sutil, que virará carícia. O arranhão, no sexo, é o alisar em que a unha se intromete.
cuisine et le sexe

A culinária transcende o encher-se de comida. Um bom prato é um bom ritual, tem sabor, cheiro, textura, cor, arrumação. E há, naturalmente, o elemento individual: há quem goste ou não de salmão. Há quem goste ou não de beterraba.
E não é que “comer” tem algo da filosofia presente no sexo?
Chupar é uma palavra feia, considero. Porém, é um ato exclusivo ao homem, e, por isso, superior. Ora… pensar é exclusivamente humano, e por tanto, é nobre.

Há quem não se aproveite muito de qualquer dessas faculdades eminentemente humanas, há quem veja mais prazer em uma ou n’outra.
Claro… “Chupar” aqui não se refere a frutas ou doces, nem “pensar” se refere a Paulo Coelho, bobos.
Sobre calcinhas e sapatos
O que o homem expressa com os sapatos a mulher expressa com as calcinhas, me dizem. Circunstancialmente ou não. Eis a dificuldade em devassar a alma feminina. Salvo, naturalmente, as exceções – voluntárias ou não.


Uhn… Suspeito não ser esta uma analogia tão fundada.
Já o lamber, ahn…

Sem mãos, à massa dos animais restou a boca como centro de suas manifestações de afeto e desprezo. O ditado nosso que diz “a mão que afaga é a que bate” aos animais soa como “a mandíbula que lambe é a que morde”.
Os humanos amantes, esses engenhosos peraltas que costroem formas de prazer, subvertem essa lógica, e usam, por exemplo, a mordida em caráter afetuoso – mordiscadazinhas que acendem as vontades e exaltam a libido. O amante, ao morder, diz: “querida, poderia utilizar tal recurso para ferir-te, entretanto, converto-o em amorosa carícia”.
Já o lamber, ahn… Isso é coisa universalmente carinhosa em todas as espécies.

Choro com uma facilidade ímpar, como uma mulherzinha, admito. Qualquer manifestação de admiração ao belo, ou mesmo declarações viscerais* fazem-me ir às lágrimas. Copiosamente até, como no caso da leitura de Gabriel García Marquez, em Cem anos de solidão. Ou em Menina de Ouro, de Clint Eastwood. A última grande-emoção-que-me-fez-chorar foi em quando a jornalista desabafou: a seleção brasileira retomou o futebol arte!
“Mulherzinha”, dirão por si só meus leitores, sem meu incentivo, mas vejam a massa se importando com a arte em lugar do resultado e entenderão. E olhem que não faço praça de bonzinho – não cedo centavos a pedintes, por exemplo, salvo aqueles que executam malabarismos em semáforos.
No fim, ser chorador até ajuda o homem com as mulheres, o homem cafajeste, naturalmente, o que não penso ser meu caso.
*Adjetivo muito empregado por críticos literários e magarefes.
Isto é uma Província

Reconhece-se uma província facilmente, pelos quatro ou cinco nomes que dominam as conversas nas esquinas. São lugares onde a unanimidade prevalece, e as oposições não são de se anular, antes, somam-se.
Vá o estrangeiro do ambiente pacífico empossado na província querer dissentir do que está posto, e vem-lhe uma enxurrada de censuras e “calma lá”:
- Não é bem assim, devemos entender que isto ou aquilo foi feito pelo bem…
…Pelo bem dos nossos mandamentos pequeno-conservadores, digo eu. Isso é a província, onde os jornalecos, qual lobos matreiros, são sedentos por saber dos seus próximos patrocinadores, e sedentários no mister crítico.
Isto é uma província.
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