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Magnifique Fleur

Qual o tipo de mulher, pergunta-se, como se os quereres já não tivessem virado poesia e indefinição. A cada um respondo uma dama – e não-damas, por vezes. Aos senhores, apresento uma pequena branca e confusa. Belas panturrilhas e não menos talentosos pés. Sim, cabelos pretos, com pequenos molhos sobrados no anterior do ouvido (quase dando nas bochechas generosas e mordíveis).

Exibe-se, nossa menina, e é entusiasta das artes e dos anos d’ouro – dançou o chachachá e valsas nobres em salões grandiosos, algo que ela mesmo ignora. Enfim, é uma “Magnifique fleur”, sagaz e ajuizada.

Dos beijos gosta dos lentos, onde desfalece e entrega-se. Ahn… uma autêntica mulherzinha, de pétalas sensíveis ao toque. Uma Monalisa.

À louca

Sim, caros: tenho me ausentado disto aqui. Me surpreende que os sete leitores que me restam não tenham abdicado de, diariamente, passar o indicador nos cantos empoeirados deste imóvel e sujar-se com o pó ralo que ainda resta por aqui. Que tem me acontecido?

Naturalmente, o ofício me consome, afinal, ao jovem de tipo – ou de cabresto, dizem uns – não é dado o direito de charlar. Ao mesmo tempo, leio pouco, e escrever é proporcional à leitura, pelo menos a escrita vulgar como a que aqui estamos acostumados. Enfim, alieno-me, e isso não é ser infeliz ou coisa que o valha, já que a alienação é pressuposto da plenitude.

Uma boa é que estou empolgado com uma pequena. Não é dessas de shopping ou de balada, como dizem, mas tem o espírito, ahn, digamos, livre. É ruiva e/ou morena, com variações louras. Loura louca, diria – louca adorável. Caso o matrimônio ocorra, aviso a vocês sete.

PS: Lembrem-se do que disse o tio Jabor: “A demanda de desempenho traz a angústia da produtividade”. Ou melhor, lembrem de me lembrar.

Separata

Tênis

Sim, ingrato leitor, isto aqui vai mal. Das mazelas que acometem o homem consciente, o homem de espírito sensível (não digo o sensível-melodramático, mas o sensível-sagaz), uma das que mais lhe corroem o amor-próprio é perceber-se tragado pelas práticas e ambições vulgares. Oh… sim, sei que os homens conscientes não têm amor-próprio, apenas um senso de autoconservação necessário às suas constatações perversas, como a que agora faço. Mas, como disse, tenho me tornado vulgar, e esses rigores teóricos não me têm apetecido ultimamente.

Por exemplo, estou numa mania reprovável de acumulação de capital. Poucos réis, confesso, mas o suficiente para ter sonhos com um automóvel com dois ou três anos de uso ou um terreninho num lugar onde não corra esgotos. Ter sonhos, repito para os malandros.

Eis que o trabalho vai me levando o tempo, e sempre ouvimos dizer que, se há trabalho, deve haver luxo – cara palavra, cara palavra. Trabalhe, diz o raciocínio corrente, mas não deixe de provar tintos franceses e maltes escoceses.

E as pequenas gostam disso. Tenho uma apaixonada por meus tênis, digo, por mim. Branca, cabelos escorridos e usuária compulsiva de shopping’s. Um pitéu, por assim dizer. Mas, uhn… penso em achar alguma que prefira sapatos italianos.

Enfim, deixemos de lado o charlar. Rio para não espantar de todo os três leitores que me restam. Vou mesmo é com o príncipe da caatinga:

“Eu sou eu, e alguém quer que eu não seja mais eu. Eu resisto em ser eu: não quero ser você. Eu quero ter as minhas coisas, não me tire aquilo que é meu. Eu não quero ter a pátria de ninguém: eu quero ter a minha pátria. Eu não quero conhecer as praias de ninguém: quero estar na minha praia. Eu não quero a comida de ninguém: quero comer o meu pequeno repasto”

Dos pressupostos do macho.

Aos homens não é permitida a ausência da canalhice. Ser cafajeste é pressuposto básico para a competência sexual: os que ignoram tal fato serão bons amigos e bons conselheiros – podem até ser aclamados como os mais legais, inteligentes, probos, competentes, sinceros e carinhosos de todos os homens.

Mas o macho, esse mente. O macho engana e disfarça, disfarça o disfarce positivo necessário à efetivação do coito.

O pior, caríssimo bom homem, é que as mulheres sabem disso. E sempre lhe dirá: “queria estar apaixonada por você. Por que fui logo gostar daquele cafajeste?”. Porque ele é cafajeste, ora. E ela sabe disso. E você, poço de probidade, acalentará ela sempre, e o macho, sempre, exercerá seu papel de macho.

A desastrada.

A Desastrada

Das mulheres, a desastrada é das mais admiráveis. Trato menos da secretária que enrola as pernas ao servir o café ao patrão, ou da intelectual que consegue derrubar uma prateleira de livros numa biblioteca. Refiro-me à desastrada na vida, àquela que não sabe em que bolso esqueceu o beijo dado a um amante eventual, e que de repente, numa lavagem qualquer de roupas sujas, percebe ele surgindo do bolso de guardar moedas pequenas, e, surpreendida, acaba colocando aquele mimo em lugar da polpuda fortuna contida em sua bolsa de notas grandes. E se arrepende.

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"Talvez não seja mais do que o meu sonho...
Esse sorriso será para outro, ou a propósito de outro
Loura débil...
Álvaro de Campos