Eu vos declaro livres e desempedidos.
Entre a dignidade e a paixão há o risco. A primeira é ociosa, séria, monocromática. A segunda é provocativa, ousada, dinâmica. Escolhe-se a paixão, e corre-se o risco da ressaca de dignidade. Escolhe-se a dignidade, corre-se o risco da sede por paixão. Mas há quem entenda a paixão como completamente digna, e a dignidade como algo apaixonante. Mas estes não apreendem os conceitos de céu e inferno.
Morrer é uma atividade difícil, embora a única verdadeiramente geradora da vida. Morre-se para privilegiar o vácuo, e a ocupação para uma próxima morte. Eis a vida.
Qual, o sucesso… O sucesso é nada além que uma estratégia de vida, um meio mais fácil de sobrevivência: tenha o sujeito sucesso e terá suas presas mais facilmente vulneráveis, afinal, ninguém desconfia de quem se lhe parece conhecido.
Cansam certas cortesias. Certas nobrezas e hábitos, ahn, chiques. De fato, o conceito de chique de logo já é vergonhoso – achar algo chique, praticar algo chique, parece atuar em um campo estranho à realidade. Para o sujeito chique, o chique não existe.
(Palavra torpe, não? “Chique”. Rum)
A tradição é a tradição, não se lhe nega impunemente. Olhe a tradição dos amores, dos casais por aí expostos e praticantes do, ahn… amor. Todos entrelaçando mãos públicas, compartilhando sorrisos incofessáveis à intimidade.
Que só a morte os separem.
Amém.
Oh, sim, reinauguremos esta decadência permanente. Estouremos as garrafas de antidepressivos, soltemos fogos de cor negra. Não é esta a festa adequada ao que vive na morte, ou o que morre na vida?
Estar numa fila, aqui para nós, é das atividades mais apocalípticas possíveis – ao menos para um sujeito alheio a burocracias e inutilidades. É mal ver os pezões de unhas amarelas do velhote à frente bater o chão com ansiedade. Ou o casal de machões discutir o jogo de ontem. A fila é a representação mais eficiente do tédio improdutivo do cotidiano.
Saber ler ajuda a entender algo da vida. “Preocupação”, por exemplo, é uma palavra mal apreendida pelos sujeitos afoitos. Leiam, ó precoces, pré-ocupação, então, que dá o mesmo que ocupar-se antecipadamente. Eis a origem de muitos cânceres: ocupar-se antecipadamente.
Irritam certas amenidades que, para o geral, devem fazer parte da convivência. Os que possuem certa afeição pela reclusão entendem isto, e certamente gastam algum número de humor com estes detalhezinhos que são mais ou menos um protocolo casado com uma falsidade. É que a metodologia das relações supera suas substâncias.
“Olá! Liga-me ou não me gosta!”. Patifaria.
Arde, quietude.
Algum dia de insurreição e intolerância vai bem, daquelas fechadas ao gabinete, com azias intelectuais ministradas em doses sensíveis à quietude.
Oh… o intelectual de província.

Qual admiração não tenho pelo intelectual de província. Não o sujeito que nasce em província, e por coisa do destino torna-se intelectual. Mas aquele que resolve ser intelectual, por qualquer capricho ou devaneio, e vive a querer dominar uma tal província com seu gênio. Uhn… são uns pulhas esses homens.
Claro, não são intelectuais. Passam à distância dum Nelson, dum Russel, dum Luiz. Suas grandes obras são… São o anúncio de luxozinhos aqui e ali, vaidadezinhas tão enormes quanto a decisão de tornarem-se intelectuais.
Nunca vi um tipo desse salvar-se.
Flu

A antipatia oriunda dos resfriados é dos grandes recursos para a lavratura de textos intolerantes e esnobes – literatura de alta qualidade, pois. A cabeça pesada estimula o recorte avulso dos retalhos, que são as palavras, e com a costura tosca deles, eis que temos a frase rústica, artesanal, despreocupada. Escrever em resfriado é das piores agonias dos que se metem às letras, é então nele que surgem as grandes obras.
Alguns silêncios são tão significativos quanto milhões de palavras e expressões. Corrijo-me: os silêncios são mais significativos que as palavras. Calar-se pode ser um insulto e um galanteio. Uma acusação e um deboche.
Isto é uma Província

Reconhece-se uma província facilmente, pelos quatro ou cinco nomes que dominam as conversas nas esquinas. São lugares onde a unanimidade prevalece, e as oposições não são de se anular, antes, somam-se.
Vá o estrangeiro do ambiente pacífico empossado na província querer dissentir do que está posto, e vem-lhe uma enxurrada de censuras e “calma lá”:
- Não é bem assim, devemos entender que isto ou aquilo foi feito pelo bem…
…Pelo bem dos nossos mandamentos pequeno-conservadores, digo eu. Isso é a província, onde os jornalecos, qual lobos matreiros, são sedentos por saber dos seus próximos patrocinadores, e sedentários no mister crítico.
Isto é uma província.
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