Carpe Diem? Pfff…
Digam “Carpe Diem” a um faminto, e não terão menos que um assassínio.
Carpe Diem? Pfff…
Digam “Carpe Diem” a um faminto, e não terão menos que um assassínio.

Afora os amigos, o homem de espírito carece dalgum interlocutor de certa inteligência uma ou outra vez. Se bem que a amizade pode fazer interseção com a inteligência, mas pode-se discordar menos dos amigos, mesmo que sejam inteligentes.

É desses filmes e novelinhas a ideia de que os amores sempre se satisfazem. Após atalhos e obstáculos, o rapazito encontra finalmente a mocinha, que deixa o galã esbelto e dominante para valorizar o fracote que, vá lá, ainda que seja fracote, ama-a.
Atentem-se os fracotes, já que o amor gosta de se apresentar como um soco no queixo. Certeiro, firme e intenso soco no queixo – principalmente nos vulneráveis fracotes.

A indolência é diferente da incompetência, não obstante ambas caminhem de mãos dadas em certos corpos. Conheço indivíduos com anormais talentos, covardemente escondidos por certa indisposição, vontade própria de omissão.
Outros, magros de grandes qualidades, exercem largamente seu não-saber (as repartições estão cheias deles).
No final, o indolente pode ter o mesmo efeito do incompetente, principalmente se eles se confundem. Não querer fazer deixa no mesmo abismo os bons e os maus. A preguiça é o teto e o piso da criatividade humana.

O adultério é um dos êxtases da vida, dos mais comentados e desejados pelos comentaristas, futriqueiros. “Ora, botaram cornos no João, saltaram a cerca da Maria…”
Trata-se de um enredo sempre curioso, notadamente para aqueles que são vítimas ou algozes do adultério – e não ignoro os casos em que essas figuras se confundem. Aqui entram os ciúmes, um lobo feroz, mordedor de consciências, que faz sangrar interrogações nos amantes.
Em sendo mulher a protagonista, pior o drama – para o coadjuvante, não para a platéia. Caso desconfie dessa verdade, bobo amante, reflita em outras mãos amparando sua pequena, desabotoando-lhe o vestido, desembaraçando-lhe o cabelo.
Puta! Meretriz! Cadela! A nós, homens, adjetivos menores são dados. Ou do mesmo tamanho, porém sem a densidade daqueles…

Hoje, nosso herói é o janota. O janotismo é uma arte caprichosa, própria dos sujeitos, digamos… Originais. Em verdade, todos temos um pouco de janotismo, quando nada nos momentos solitários em frente ao espelho, onde arriscamos os penteados esdrúxulos que, por nós, até aceitaríamos usar, mas que não aprovamos em virtude do pensar alheio.
O janota estréia, ousa, extravaga. Oh, e não o digam que está cafona ou brega, pois ele o condenará de pronto à pecha de mal-cuidado e, certamente, de invejoso – e quase está certo.
E percebam que o ser janota, almofadinha ou dude, não se resume à moda do vestir, pois janotas existem de todas as modalidades. Pensem no político janota, como um grande prefeito vanguardista que decretou o verde como cor oficial das residências e estabelecimentos da cidade que governava.
O janota no comer não come de qualquer modo. Cria engenharias de assalto ao prato, inclusive recusando-se caprichosamente a pôr na boca alimentos que dias antes tinha como boas iguarias. Este é o espírito do janota: enjoado, inventor e incompreensivelmente vanguardista.

Que coisa. Não é que esqueci de O Outro, a sete do disco aí de baixo, cantado por Adriana Calcanhoto? Sim, sim… E trata-se de um poema de Mário de Sá-Carneiro musicado por ela, autora da homenagem ao poeta português feita aqui no título.
Ahnm… Sá-Carneiro é para mim um gênio. Prova é seu Caranguejola, que deixo com vocês por hoje:
Caranguejola
Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada!…
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado…
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira…
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.Não, não estou para mais; não quero mesmo brinquedos.
P’ra quê? Até se mos dessem não saberia brincar…
Que querem fazer de mim com estes enleios e medos?
Não fui feito p’ra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar!…Noite sempre p’lo meu quarto. As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho – que amor!…
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor -
P’lo menos era o sossego completo… História! Era a melhor das vidas…Se me doem os pés e não sei andar direito,
P’ra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde.
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito…De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?
Deixa-te de ilusões, Mário! Bom édredon, bom fogo -
E não penses no resto. É já bastante, com franqueza…Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará
P’ra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim. C’o a breca! levem-me p’rá enfermaria -
Isto é: p’ra um quarto particular que o meu pai pagará.Justo. Um quarto de hospital – higiénico, todo branco, moderno e tranquilo;
Em Paris, é preferível, por causa da legenda…
De aqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda;
E depois estar maluquinho em Paris, fica bem, tem certo estilo…Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras.
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.Mário de Sá-Carneiro
Brilhante, não?

Existem indivíduos recessivos e indivíduos dominantes. E, sim, existem aqueles intermediários, tal qual nos ensina Mendel.
Os recessivos são particularmente admiráveis, dada sua escassez e raridade. Não se manifestam com facilidade, e são submetidos ao opróbrio na presença dos dominantes. O sujeito recessivo vive com risos pequenos no canto da boca, olha com desdém para cantos desinteressantes e concorda discordando das manifestações dominantes.
Ora, o dominante. Trata-se do cara espalhafatoso, impositor e efusivo. Não, geralmente não tem razão, ou quando tem deixa de ter pelo modo que a impõe. O mancebo dominante grita e ri com dedo em riste, e sonega tudo que não se volta a si.
Já o intermediário é um e outro em dependendo da ocasião. Um maria-vai-com-as-outras. Uma puta.

Discutia com um tolo sobre os grandes homens, quando surgiu a assertiva socrática:
“É preferível sofrer o mal do que fazer o mal”
“Antes de ler isso, já pensava desse modo. Logo, se Sócrates não tivesse existido, eu seria tão filósofo quanto ele”, disse o tonto. Isso é o mesmo que dizer: “Antes de saber as Leis de Newton, já deduzia que as coisas aconteciam do modo que elas afirmam. Logo, se Newton não tivesse existido, eu seria tão físico quanto ele”.
Acontece que até mesmo uma criança da nossa pós-modernidade já teve contato com princípios mais complexos do que os fundamentais descritos por homens como Sócrates e Newton – apesar de ambos terem definido muitas complexidades também. O que aprendemos hoje em moral já está eivado de Sócrates, e o que aprendemos em física está sortido de Newton. Elimine essa base, e o topo ruirá.
É por pensar mais ou menos como nosso tolinho que muitos religiosos não entendem que Cristo não é lá tão pioneiro.
Next,
"Considero a crueldade e o assassínio em massa coisas más e desejava que todos concordassem com a minha opinião. Isto não evita que outros desejam tanto a crueldade como o assassínio em massa, tal como demonstra o procedimento de todos os que ocupam posições de mando e da maioria da humanidade."
Bertrand Russel