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A mulher apenas é mulher quando torna-se consciente do seu corpo, tomando distância do tradicional conceito que o torna um campo de pudores. Utilizando este entendimento, digamos, machista, até para manipular quem seja seduzível, provocar, instigar. Coitados dos homens, que sustentam a liberdade corporal e impuseram a privacidade às mulheres: criaram a arma de dominação. Coitados de nós.

Dexter

Assistir Dexter tem sido uma boa experiência moral e psicológica: um sujeito ensinado a não sentir através da didática de  um grande sentimento. A álgebra que se expõe ali mostra que as emoções são inversamente proporcionais: quanto maior a paixão, maior o desprezo que se lhe sucede. Quanto maior o abalo íntimo, mais intimamente blindado esstará o sujeito. Trata-se de questão complexa, de fato, mas não é demais perceber que cada um exerce seu lado Dexter ao tempo em que vai sofrendo tragédias íntimas. Uns mais, outros menos.

As tradições

Às vezes se toma a tradição apenas como aquilo que se faz irrefletidamente e por mera repetição por muitos há muito tempo. É uma possibilidade. Mas a tradição pode também ser uma competente prática ou entendimento: a melhor saída para um problema, o melhor prazer para o tédio, a mais eficiente receita. Por isso, se impôs como tradição.

Há também tradições mistas: se anunciam como algo inócuo, sem sentido ou intenção, mas é a melhor forma de realizar certos objetivos nem sempre confessáveis. Eis as tradições.

Suspeito que os sujeitos muito ligados às estratégias da administração, destes que medem até a posição em que dormirão para satisfazer as metas do sono, são os ciborgues que veremos. Nada de robôs se tornando homens, como supôs Spielberg. O contrário, possivelmente.

Entre os casais também a disputa histórica entre a igualdade e a liberdade ocorre. O extremo da liberdade é a solterice. O extremo da igualdade é o casamento tradicional, digamos, cristão. A casada que se quer tornar livre, pede a solterice. O solteiro que quer moldar-se a alguém, pede o casamento. Liberdade versus igualdade.

Os grandes autores, em uma palavra, possuem fôlego. A literatura é tanto uma apneia, em que o escritor faz economia do ar em seus pulmões, poupando-se exaustivamente para a sobrevivência, quanto um grito contínuo, que carece de vigor, vida e ousadia para se prolongar. Nesta pneumologia das letras, admito-me um asmático compulsivo – e incurável.

Evitar conflitos interpessoais é útil e perigoso. Útil porque evita o envolvimento com questões menores, o desgaste com atitudes comezinhas. Geralmente o embate entre dois sujeitos é feito de exageros de ambas as partes, provocações inúteis e indelicadas. Perigoso porque sem os conflitos há o risco de se cair em corrupção, politicagem e omissão benevolente. Criam-se monstros com a dispensabilidade dos conflitos.

malemolência profícua. maçã azeviche.

Falemos da figura que se apresenta sofisticada, o sujeito que quer aparecer comentarista para além das trivialidades. Este tipo, ao ver um drible convencional de um jogador que parece-lhe interessante, diz medianamente o seguinte: “Ora, como dribla com malemolência profícua este jogador”. Ou, ao ver o novo verde lançado como cor de uma nova marca de carro – “viu o verde do carro novo? Algo como cor de maçã azeviche”.

A este crápula não se dê qualquer inovação aparente (ou não) que, pimba, ele vai e emprega adjetivos sobre adjetivos nunca dantes imaginados. É o típico portador da sensibilidade crítica.

Quatro

Há sujeitos com o espírito voltado ao cotidiano, à prática repetitiva e constante das burocracias – trabalhadores incansáveis que fazem, digamos, o mundo girar. Estas peças são a maioria da humanidade, pois a ‘humanidade’ enquanto tal, exige esta estabilidade ordinária, da qual muitos homens fazem parte até compulsoriamente: poucos despacham carimbos e escavacam o chão todos os dias por tesão.

Há, porém, uma parte diminuta de pessoas que são inventores, inovadores e, ahn, artistas. Aliás, há os que são, de fato, e os que querem sair daquela primeira classe de ordinários para revolucionar o mundo (pff). Esses que querem são como a “Aurora sem Dia” machadiana. Tão inovadores quanto o resultado de dois mais dois.

O sujeito que aspira a vanguarda se ressente das burocracias, e chega a ter angústias por necessitar praticá-las, às vezes. O melhor, pois, é ser um burocrata de alto conformismo, e, quem sabe, aparecer como invador involuntário. O melhor e o difícil.

Não sei quem disse, mas há o conceito de que “a arte mente para alcançar a verdade, a política mente para alcançar a autoridade”. Com o advento do artista-político isto fica um tanto confuso, não?

Entre as coisas que a vida nos põe está a manutenção do controle. O controle. Eis o grande desafio: o controle.

Desafio

Entre os desafios postos ao indivíduo médio, está a manutenção da sobriedade em momentos de devaneio. Praticar a moderação em instantes de efusão. Ser modesto quando o tempo é de pompa.

Ahn… Este é um desafio idealista e incompatível com o carpe diem. Porém, um desafio, deveras.

Algumas obras intelectuais exigem esforços e sofrimentos hercúleos. Que mané criatividade e talento. Pfff… Produzir é mais um cansaço que uma inspiração.

Rá… Digam-me onde a vida se mostra tão explícita quanto sob as mesas.

As fraturas são instantes em que a docilidade foge-nos ao espírito; como na quinta de Beethoven, a fúria corrói o convencionalismo, e a rebeldia torna-se necessária, mesmo que não fundamentada. Em uma palavra, a crise nos leva à indisciplina.

Oh, tola paixão

A paixão é filha da ignorância, sabemos. O tolo apaixonado é seduzido por dois caminhos, ou vê o que não é, ou nada vê. Ou é vítima do comportamento omisso, fechado, ou do comportamento aberto, mas falseado. Por isso as pequenas gostam de rapazes mui engraçados, ou misteriosos: são as duas faces possíveis ao homem comum, que não quer mostrar-se em suas vísceras.

O Inimigo

Sinto-me intrigado quando vejo alguém a dizer que esta ou aquela gente é sua “inimiga”. Eu, por mim, não tenho inimigos – não por qualquer ânimo cristão ou por benevolência pia. Conheço, de fato, alguns sujeitos odiosos, daqueles a quem nem sequer empenho-me em dirigir o olhar, porém, mesmo estes pulhas, não chegam a ser “inimigos”.

Sempre receio que há algo útil em alguém, ou pelo menos aquilo que pode lhe converter como um “útil”. Afinal, que é um inimigo, senão alguém de quem não podemos tirar proveito?

Uma súcia!

O progressismo não é para qualquer fígado, não obstante se utilize-o largamente em dias de hoje. Cosmeticamente, como se diz. Ó lá um revolucionário, eis aqui um inovador… pfff. Uma súcia!

O grande amor da sua vida

Ora, que símbolo não é este “grande amor da sua vida”. Terá sido a que beijei em canto de boca apenas, por falta de vigor moral? Ou aqueloutra a quem sequer tive outro carinho além dos pezinhos em cima de meu colo? (inclusive, os pés femininos são uma expressão de sua dignidade, não?).

Enfim, julgo alguma tolice neste conceito de “grande amor da vida”. No arrematar do nó, o grande amor da vida é o amor que ora existe. Finda-se o amor, finda-se o “grande amor da vida”. Respeite-se, pois, todos os amores, já que são eles todos “grandes amores da sua vida”.

o sexo é possível sem amor. há os que são até excelentes sem amor. porém, o sexo com amor é sublime, inconfundível e surpreendente – não obstante os elementos comuns a todo sexo.

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"No Museu Dos Vencidos estão reunidos todos os papeizinhos com os discursos de agradecimento não lidos pelos perdedores de todos os prêmios."
Michel Melamed