Sempre ocorrem mais adolescências nos homens que a tradicionalmente comentada – aquela a partir dos 13. Se este raciocínio estiver correto, as adolescências ocorrem de 15 em 15 anos, aproximadamente. Na primeira, estranhamos o adultismo. Na segunda, tememos a irresponsabilidade. Na terceira, amendontra-nos a velhice. Na quarta, a mão fria da morte começa a nos acariciar. Há quem diga que da quinta em diante, ri-se das demais.
Tomar conhecimento de uma verdade não a torna mentira. Antes a dúvida que a frustração do irremediável.
Os troll’s denunciados
O termo “troll” tem se inserido no populacho. Trata-se do indivíduo, digamos, implicante, uma espécie de duende que satisfaz-se sempre com discordâncias e peraltices gratuitas, irritando um terceiro. Para além do uso massivo do termo, houve aqui uma denúncia: sabe-se agora que certos esquerdistas não passam de troll’s. Implicantes e irritadiços, sua ideologia é discordar – ao menos enquanto não alcançam o poder.
Convém que a discrição seja uma qualidade essencial à vivência maneira. Pôr-se menos é, sempre, fidalgo e prudente.
Ser espectador de si mesmo, eis o que faz o homem diferente dos demais seres. Eis o que cada homem possui em exclusividade. Uns até se inserem em sua individualidade, outros contemplam certas partes dela. Mas apenas o homem, sozinho, é espectador de si mesmo.
Não fosse Platão, a boa música seria aquela que nos faz bater o pezinho quando executada.
Lançar impróperios aos que estão no poder é negar o poder ou tentar tomá-lo para os seus?
Um tema da elite
Sou um adepto da moda, da valorização a certa preocupação com o vestir-se. A tradição manda que esta seja uma preocupação menor, praticada apenas por “chiques”, “almofadinhas”. Em resumo, um tema da elite. Mas como tudo que carece de escolha, não é mais ou menos elevado anunciar que não se escolhe, afinal, esta é também uma escolha.
Ou seja, escolher a camisa branca em lugar da preta porque esta é mais quente que aquela, é fazer moda. Vestir preto em velório, não menos. Escolhas estéticas, úteis; enfim, moda.
Vive-se e aprende-se que a infantilidade pode conviver com a perversidade sedenta por poder. Em um só sujeito.
O mundo é menos dramático que nossas ambições e especulações.
Sempre atribuímos às causas e efeitos do mundo motivos épicos, novelescos. Separa-se um casal, sugerimos algum adultério – nunca o tediozinho que tornou consensual o rompimento.
Fecha um restaurante, houve falência e bancarrota: quem quiser que olhe os negativos na conta do proprietário. E não é que o sujeito apenas enojou-se do negócio?
O mundo é menos dramático que nossas ambições e especulações.
Parar e respirar
Respirar é uma atividade comum, corriqueira. Desapercebidamente corriqueira. Em instantes de complexidade e confusão, entretanto, é difícil perceber que se respira. É difícil respirar, e só. O fôlego da pura respiração já salvou muitos amores, já salvou muitos impérios.
os discordantes
Alguns sujeitos são explosivos, discordantes, ou, como se anuncia por aí, problemáticos. Levam a vida sob o pretexto do enfrentamento. Por um lado, são uns chatos, cansativos em seus discursos de oposição. Por outro, são úteis: ensinam aos que carecem de experiência que nem toda a vida é consenso e sensatez.
A conversão ao adultismo
Durante a lucidez da adolescência pensamos que nunca nos tornaremos acomodados, convencionais, em uma palavra, adultos. E como há obstáculos para seguir o ímpeto juvenil: há toda uma súcia de fiéis a defender o comedimento, a moderação. Imperceptivelmente, somos convertidos, aderimos ao adultismo.
A mulher apenas é mulher quando torna-se consciente do seu corpo, tomando distância do tradicional conceito que o torna um campo de pudores. Utilizando este entendimento, digamos, machista, até para manipular quem seja seduzível, provocar, instigar. Coitados dos homens, que sustentam a liberdade corporal e impuseram a privacidade às mulheres: criaram a arma de dominação. Coitados de nós.
Dexter
Assistir Dexter tem sido uma boa experiência moral e psicológica: um sujeito ensinado a não sentir através da didática de um grande sentimento. A álgebra que se expõe ali mostra que as emoções são inversamente proporcionais: quanto maior a paixão, maior o desprezo que se lhe sucede. Quanto maior o abalo íntimo, mais intimamente blindado esstará o sujeito. Trata-se de questão complexa, de fato, mas não é demais perceber que cada um exerce seu lado Dexter ao tempo em que vai sofrendo tragédias íntimas. Uns mais, outros menos.
As tradições
Às vezes se toma a tradição apenas como aquilo que se faz irrefletidamente e por mera repetição por muitos há muito tempo. É uma possibilidade. Mas a tradição pode também ser uma competente prática ou entendimento: a melhor saída para um problema, o melhor prazer para o tédio, a mais eficiente receita. Por isso, se impôs como tradição.
Há também tradições mistas: se anunciam como algo inócuo, sem sentido ou intenção, mas é a melhor forma de realizar certos objetivos nem sempre confessáveis. Eis as tradições.
Suspeito que os sujeitos muito ligados às estratégias da administração, destes que medem até a posição em que dormirão para satisfazer as metas do sono, são os ciborgues que veremos. Nada de robôs se tornando homens, como supôs Spielberg. O contrário, possivelmente.
Entre os casais também a disputa histórica entre a igualdade e a liberdade ocorre. O extremo da liberdade é a solterice. O extremo da igualdade é o casamento tradicional, digamos, cristão. A casada que se quer tornar livre, pede a solterice. O solteiro que quer moldar-se a alguém, pede o casamento. Liberdade versus igualdade.
Os grandes autores, em uma palavra, possuem fôlego. A literatura é tanto uma apneia, em que o escritor faz economia do ar em seus pulmões, poupando-se exaustivamente para a sobrevivência, quanto um grito contínuo, que carece de vigor, vida e ousadia para se prolongar. Nesta pneumologia das letras, admito-me um asmático compulsivo – e incurável.
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