Fugir, entre as possibilidades da ação humana, é aquela mais comum e razoável. A existência estaria reduzida a pouco, caso prevalecesse sempre o enfrentamento das coisas. Viver é burocratizar…
nausées

Há vezes em que o homem parece estar em seu limite. Não digo do homem que corre a maratona, e exausto desmaia por ausência de oxigênio ou outro insumo. Refiro-me à exaustão da alma. O homem findo, acabado, deixa de criar, não imagina, despreza e esnoba até a criação alheia, pois à exaustão que me refiro é própria a náusea de tudo e todos.
Talvez o leitor ingenuozinho não me entenda, por isso cito Sartre em sua Náusea:
“Quanto a mim, vivo sozinho, inteiramente só. Nunca falo com ninguém; não recebo nada, não dou nada. Faz já muito tempo que ninguém se preocupa com o que faço. Quando se vive sozinho, já nem mesmo se sabe o que é narrar: a verossimilhança desaparece junto com os amigos. Raramente um homem sozinho sente vontade de rir. Incomoda-me estar só.”
Eis a exaustão, patetas.
Inferno

Todos passamos por certos infernos particulares. São ocasiões em que os ímpetos e talentos são utilizados em limites. Não fuja, caro leitor, de tal momento. Melhor: não tentes fugir.
Por ser impossível escapar dos infernos, vale admitir que se está nele, e, às vezes, tornar-se um seu participante ativo.
Os infernos foram feitos para serem deglutidos, saboreados, interpretados. Eis como o dito se elimina: não se querendo eliminá-lo.
O que deve ser tema num ambiente de ficção? Justamente ela, a ficção. Entretanto, não se obsta ao autor duma obra de ficção implantar, ardilosamente, sorrateiramente, um pitaco de realidade – que, tal como uma bomba, explodirá na cara daquele que se aventura a vê-la como ela é, realidade. É daí que surge coisas como ‘a vida imita a arte’ ou ‘a realidade parece ficção’.
Decifra-me, ou devoro-te.
O balaio em que está posto o homem
Pôr-se em exposição é exercitar os sofisticados desejos da sedução. Os desejos de ser desejado, digo. Coisa invulgar, mesmo que repetida, cotidianamente reinventada, praticada. Parece ser o fomento do desejo o vetor, a força, a intensidade da vida.
“Olha aqui! Olha aqui! Aproveitem, estou eu em promoção neste balaio!”, anunciamos incansáveis.
Tratemos do homem imponente, o qual sequer abre uma ínfima fresta para a compreensão do que não seja ele. Carregado de teorias, é sempre o espertalhão. Valoriza prolixamente o suscinto, aposta vencedoramente no derrotado.
Grande formulador de teses eloquentes – impressionando mais por ser eloquente do que por ser tese.
Este tipo sempre sobreviverá, pois a sua antítese nunca o enfrentou, nem nunca irá fazê-lo. Este tipo, se muito, baba de lágrimas o travesseiro por uma pequena. Mas deste veneno, concordemos, todo homem saboreia.
Do Envelhecimento

Levar-se pelas águas do cotidiano é arriscado à integridade de qualquer espírito. Eu, quando não tinha que fazer senão sonhar alcançar a intelectualidade, beirava a sensibilidade das convicções minhas e alheias – causa do que se chama “inconformismo” dos jovens. Sim, a nova idade se incomoda porque sente.
Deram-me, então, o que fazer, e sinto cada vez menos. Manter o espírito sem anestesia é tarefa pouco corriqueira, praticada com excelência por aqueles a quem devem ser chamados “artistas”. Ser artista é algo além da execução duma obra de arte: trata-se da questão de (não) formatação do espírito.
Já os normais, como parece me ocorrer, em uma palavra, envelhecem.
A Desgraça

A desgraça do homem surge várias vezes em vida, tal como uma tentação. “Vês? Tudo dá errado, és um incompetente. Aderes logo ao cemitério de espíritos, e vives em cobardia, ou joga tudo ao ar…”, diz a desgraça. Eis a sedução que se nos surge para compor as fileiras da omissão, da indolência.
Carpe Diem? Pfff…
Digam “Carpe Diem” a um faminto, e não terão menos que um assassínio.

Afora os amigos, o homem de espírito carece dalgum interlocutor de certa inteligência uma ou outra vez. Se bem que a amizade pode fazer interseção com a inteligência, mas pode-se discordar menos dos amigos, mesmo que sejam inteligentes.
punch

É desses filmes e novelinhas a ideia de que os amores sempre se satisfazem. Após atalhos e obstáculos, o rapazito encontra finalmente a mocinha, que deixa o galã esbelto e dominante para valorizar o fracote que, vá lá, ainda que seja fracote, ama-a.
Atentem-se os fracotes, já que o amor gosta de se apresentar como um soco no queixo. Certeiro, firme e intenso soco no queixo – principalmente nos vulneráveis fracotes.
Indolência

A indolência é diferente da incompetência, não obstante ambas caminhem de mãos dadas em certos corpos. Conheço indivíduos com anormais talentos, covardemente escondidos por certa indisposição, vontade própria de omissão.
Outros, magros de grandes qualidades, exercem largamente seu não-saber (as repartições estão cheias deles).
No final, o indolente pode ter o mesmo efeito do incompetente, principalmente se eles se confundem. Não querer fazer deixa no mesmo abismo os bons e os maus. A preguiça é o teto e o piso da criatividade humana.
Adultério

O adultério é um dos êxtases da vida, dos mais comentados e desejados pelos comentaristas, futriqueiros. “Ora, botaram cornos no João, saltaram a cerca da Maria…”
Trata-se de um enredo sempre curioso, notadamente para aqueles que são vítimas ou algozes do adultério – e não ignoro os casos em que essas figuras se confundem. Aqui entram os ciúmes, um lobo feroz, mordedor de consciências, que faz sangrar interrogações nos amantes.
Em sendo mulher a protagonista, pior o drama – para o coadjuvante, não para a platéia. Caso desconfie dessa verdade, bobo amante, reflita em outras mãos amparando sua pequena, desabotoando-lhe o vestido, desembaraçando-lhe o cabelo.
Puta! Meretriz! Cadela! A nós, homens, adjetivos menores são dados. Ou do mesmo tamanho, porém sem a densidade daqueles…
O Janota

Hoje, nosso herói é o janota. O janotismo é uma arte caprichosa, própria dos sujeitos, digamos… Originais. Em verdade, todos temos um pouco de janotismo, quando nada nos momentos solitários em frente ao espelho, onde arriscamos os penteados esdrúxulos que, por nós, até aceitaríamos usar, mas que não aprovamos em virtude do pensar alheio.
O janota estréia, ousa, extravaga. Oh, e não o digam que está cafona ou brega, pois ele o condenará de pronto à pecha de mal-cuidado e, certamente, de invejoso – e quase está certo.
E percebam que o ser janota, almofadinha ou dude, não se resume à moda do vestir, pois janotas existem de todas as modalidades. Pensem no político janota, como um grande prefeito vanguardista que decretou o verde como cor oficial das residências e estabelecimentos da cidade que governava.
O janota no comer não come de qualquer modo. Cria engenharias de assalto ao prato, inclusive recusando-se caprichosamente a pôr na boca alimentos que dias antes tinha como boas iguarias. Este é o espírito do janota: enjoado, inventor e incompreensivelmente vanguardista.
Uma bichinha complicada com uma poesia não menos densa.

Que coisa. Não é que esqueci de O Outro, a sete do disco aí de baixo, cantado por Adriana Calcanhoto? Sim, sim… E trata-se de um poema de Mário de Sá-Carneiro musicado por ela, autora da homenagem ao poeta português feita aqui no título.
Ahnm… Sá-Carneiro é para mim um gênio. Prova é seu Caranguejola, que deixo com vocês por hoje:
Caranguejola
Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada!…
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado…
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira…
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.Não, não estou para mais; não quero mesmo brinquedos.
P’ra quê? Até se mos dessem não saberia brincar…
Que querem fazer de mim com estes enleios e medos?
Não fui feito p’ra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar!…Noite sempre p’lo meu quarto. As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho – que amor!…
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor -
P’lo menos era o sossego completo… História! Era a melhor das vidas…Se me doem os pés e não sei andar direito,
P’ra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde.
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito…De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?
Deixa-te de ilusões, Mário! Bom édredon, bom fogo -
E não penses no resto. É já bastante, com franqueza…Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará
P’ra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim. C’o a breca! levem-me p’rá enfermaria -
Isto é: p’ra um quarto particular que o meu pai pagará.Justo. Um quarto de hospital – higiénico, todo branco, moderno e tranquilo;
Em Paris, é preferível, por causa da legenda…
De aqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda;
E depois estar maluquinho em Paris, fica bem, tem certo estilo…Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras.
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.Mário de Sá-Carneiro
Brilhante, não?
aa, AA, Aa

Existem indivíduos recessivos e indivíduos dominantes. E, sim, existem aqueles intermediários, tal qual nos ensina Mendel.
Os recessivos são particularmente admiráveis, dada sua escassez e raridade. Não se manifestam com facilidade, e são submetidos ao opróbrio na presença dos dominantes. O sujeito recessivo vive com risos pequenos no canto da boca, olha com desdém para cantos desinteressantes e concorda discordando das manifestações dominantes.
Ora, o dominante. Trata-se do cara espalhafatoso, impositor e efusivo. Não, geralmente não tem razão, ou quando tem deixa de ter pelo modo que a impõe. O mancebo dominante grita e ri com dedo em riste, e sonega tudo que não se volta a si.
Já o intermediário é um e outro em dependendo da ocasião. Um maria-vai-com-as-outras. Uma puta.
O tolinho

Discutia com um tolo sobre os grandes homens, quando surgiu a assertiva socrática:
“É preferível sofrer o mal do que fazer o mal”
“Antes de ler isso, já pensava desse modo. Logo, se Sócrates não tivesse existido, eu seria tão filósofo quanto ele”, disse o tonto. Isso é o mesmo que dizer: “Antes de saber as Leis de Newton, já deduzia que as coisas aconteciam do modo que elas afirmam. Logo, se Newton não tivesse existido, eu seria tão físico quanto ele”.
Acontece que até mesmo uma criança da nossa pós-modernidade já teve contato com princípios mais complexos do que os fundamentais descritos por homens como Sócrates e Newton – apesar de ambos terem definido muitas complexidades também. O que aprendemos hoje em moral já está eivado de Sócrates, e o que aprendemos em física está sortido de Newton. Elimine essa base, e o topo ruirá.
É por pensar mais ou menos como nosso tolinho que muitos religiosos não entendem que Cristo não é lá tão pioneiro.
Nota de um professor num diário de escola
Senhores pais: ensinem seus infantes a suportarem injustiças. Todos precisam ter, vá lá, quinze ou vinte por cento de escravo no espírito.
Separata

Sim, ingrato leitor, isto aqui vai mal. Das mazelas que acometem o homem consciente, o homem de espírito sensível (não digo o sensível-melodramático, mas o sensível-sagaz), uma das que mais lhe corroem o amor-próprio é perceber-se tragado pelas práticas e ambições vulgares. Oh… sim, sei que os homens conscientes não têm amor-próprio, apenas um senso de autoconservação necessário às suas constatações perversas, como a que agora faço. Mas, como disse, tenho me tornado vulgar, e esses rigores teóricos não me têm apetecido ultimamente.
Por exemplo, estou numa mania reprovável de acumulação de capital. Poucos réis, confesso, mas o suficiente para ter sonhos com um automóvel com dois ou três anos de uso ou um terreninho num lugar onde não corra esgotos. Ter sonhos, repito para os malandros.
Eis que o trabalho vai me levando o tempo, e sempre ouvimos dizer que, se há trabalho, deve haver luxo – cara palavra, cara palavra. Trabalhe, diz o raciocínio corrente, mas não deixe de provar tintos franceses e maltes escoceses.
E as pequenas gostam disso. Tenho uma apaixonada por meus tênis, digo, por mim. Branca, cabelos escorridos e usuária compulsiva de shopping’s. Um pitéu, por assim dizer. Mas, uhn… penso em achar alguma que prefira sapatos italianos.
Enfim, deixemos de lado o charlar. Rio para não espantar de todo os três leitores que me restam. Vou mesmo é com o príncipe da caatinga:
“Eu sou eu, e alguém quer que eu não seja mais eu. Eu resisto em ser eu: não quero ser você. Eu quero ter as minhas coisas, não me tire aquilo que é meu. Eu não quero ter a pátria de ninguém: eu quero ter a minha pátria. Eu não quero conhecer as praias de ninguém: quero estar na minha praia. Eu não quero a comida de ninguém: quero comer o meu pequeno repasto”





