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O tolinho

Sócrates

Discutia com um tolo sobre os grandes homens, quando surgiu a assertiva socrática:

“É preferível sofrer o mal do que fazer o mal”

“Antes de ler isso, já pensava desse modo. Logo, se Sócrates não tivesse existido, eu seria tão filósofo quanto ele”, disse o tonto. Isso é o mesmo que dizer: “Antes de saber as Leis de Newton, já deduzia que as coisas aconteciam do modo que elas afirmam. Logo, se Newton não tivesse existido, eu seria tão físico quanto ele”.

Acontece que até mesmo uma criança da nossa pós-modernidade já teve contato com princípios mais complexos do que os fundamentais descritos por homens como Sócrates e Newton – apesar de ambos terem definido muitas complexidades também. O que aprendemos hoje em moral já está eivado de Sócrates, e o que aprendemos em física está sortido de Newton. Elimine essa base, e o topo ruirá.

É por pensar mais ou menos como nosso tolinho que muitos religiosos não entendem que Cristo não é lá tão pioneiro.

Nota de um professor num diário de escola

Senhores pais: ensinem seus infantes a suportarem injustiças. Todos precisam ter, vá lá, quinze ou vinte por cento de escravo no espírito.

Separata

Tênis

Sim, ingrato leitor, isto aqui vai mal. Das mazelas que acometem o homem consciente, o homem de espírito sensível (não digo o sensível-melodramático, mas o sensível-sagaz), uma das que mais lhe corroem o amor-próprio é perceber-se tragado pelas práticas e ambições vulgares. Oh… sim, sei que os homens conscientes não têm amor-próprio, apenas um senso de autoconservação necessário às suas constatações perversas, como a que agora faço. Mas, como disse, tenho me tornado vulgar, e esses rigores teóricos não me têm apetecido ultimamente.

Por exemplo, estou numa mania reprovável de acumulação de capital. Poucos réis, confesso, mas o suficiente para ter sonhos com um automóvel com dois ou três anos de uso ou um terreninho num lugar onde não corra esgotos. Ter sonhos, repito para os malandros.

Eis que o trabalho vai me levando o tempo, e sempre ouvimos dizer que, se há trabalho, deve haver luxo – cara palavra, cara palavra. Trabalhe, diz o raciocínio corrente, mas não deixe de provar tintos franceses e maltes escoceses.

E as pequenas gostam disso. Tenho uma apaixonada por meus tênis, digo, por mim. Branca, cabelos escorridos e usuária compulsiva de shopping’s. Um pitéu, por assim dizer. Mas, uhn… penso em achar alguma que prefira sapatos italianos.

Enfim, deixemos de lado o charlar. Rio para não espantar de todo os três leitores que me restam. Vou mesmo é com o príncipe da caatinga:

“Eu sou eu, e alguém quer que eu não seja mais eu. Eu resisto em ser eu: não quero ser você. Eu quero ter as minhas coisas, não me tire aquilo que é meu. Eu não quero ter a pátria de ninguém: eu quero ter a minha pátria. Eu não quero conhecer as praias de ninguém: quero estar na minha praia. Eu não quero a comida de ninguém: quero comer o meu pequeno repasto”

Dos pressupostos do macho.

Aos homens não é permitida a ausência da canalhice. Ser cafajeste é pressuposto básico para a competência sexual: os que ignoram tal fato serão bons amigos e bons conselheiros – podem até ser aclamados como os mais legais, inteligentes, probos, competentes, sinceros e carinhosos de todos os homens.

Mas o macho, esse mente. O macho engana e disfarça, disfarça o disfarce positivo necessário à efetivação do coito.

O pior, caríssimo bom homem, é que as mulheres sabem disso. E sempre lhe dirá: “queria estar apaixonada por você. Por que fui logo gostar daquele cafajeste?”. Porque ele é cafajeste, ora. E ela sabe disso. E você, poço de probidade, acalentará ela sempre, e o macho, sempre, exercerá seu papel de macho.

Constatações últimas

- As práticas que influenciam as decisões políticas são mais sujas do que nossa vã maldade desconfia…

- A solidão é um estado de espírito formidável para que o sujeito dedique-se ao trabalho. O bom profissional é o status formidável para que o sujeito encontre uma pequena. Enfim, a solidão leva às pequenas.

- Torcer para o Flamengo e comer quibes em botequins de esquina não fazem tão bem ao estômago.

O anti-social

O anti-social

Perdoem-me, mas diálogos são relações complexas. A incompreensão disto gera conflitos desagradáveis, levando sempre uma das partes a ver o outro como um inconveniente: o verdadeiro anti-social.

Lá está você sentado a esperar a chegada de seu vôo, quando um pulha diz o quanto está frio, que mulheres só querem saber de gastar e que não é fácil criar filhos. E começa a fazer um estudo de banalidades, dissecando as coisas com a (i)lógica genérica da massa. Sim, dizemos com a cabeça e com palavras estéreis – “pois é”, “exatamente”, “oh, sim”…

De quando em quando você, o intolerante, olha para a boca e os dentes do pirata, certamente amarelos e mal cuidados, e sente algo como uma ojeriza. Os sapatos rotos, a coluna encurvada, a barriga com certa saliência lipídica: tudo indica o quão trivial é o indivíduo.

Nesse instante, o cheiro do desinfetante do banheiro é mais atraente, ou mesmo sair para repetir a dose de café. Tudo para subtrair-se ao – verdadeiro – anti-social.

Michel Melamed

Michel Melamed

O poeta Michel Melamed é entrevistado por Marieta Cazarré (UnBTV):

“Endenter o experimental como a busca de originalidade, a busca por uma linguagem própria, por um estilo. A liberdade, enfim. Olhando a História da Arteem retrospectiva, acho que os principais momentos, ou o que se entende como História da Arte, é feito no que se entende em algum momento como experimentação”

Ele fala sobre arte, cidadania etc…

“Em linhas gerais, eu acredito muito, sim, nessa não-linearidade, não porque a linearidade seja ruim, mas talvez haja um predomínio dessa linguagem na maioria das mídias, seja televisão, teatro… A gente sempre, ou na maioria das vezes, tem se deparado com ela (a linearidade). E ela pode ser muitas vezes — eu ia falar a palavra perigosa, porque eu estou com televisão na cabeça. No caso da tevê, por exemplo,ela pode ser duvidosa, porque a linearidade muitas vezes trabalha com persuasão. Então exemplos claros na televisão são uma novela ou um noticiário que está dando um texto e aí passa uma música que sublinha esse texto, com um tipo de enquadramento… Quer dizer,tudo te leva a uma única compreensão”.

Quem clicar na imagem assiste toda a entrevista.

Machado de Assis, o lúcido.

Machado de Assis

Na prosa em Língua Portuguesa, o melhor é Machado de Assis. Na poesia, Fernando Pessoa. Machado escreve como estivesse conversando, de pernas cruzadas, sentado numa elegante cadeira imperial: com as mãos ocupadas, ele segura a xícara de chá em uma, e penteia o bigode usando o indicador com a outra. Com ar de superioridade, ele provoca, sem compromisso com a família e a sociedade, ele ironiza e achincalha.

Machado foi um dos grandes influenciadores em minha educação moral (aos 17 tinha lido todos os seus romances). As Memórias Póstumas são meu Novo Testamento – e, não, Brás Cubas não ressuscitará!

Através dele conheci Schopenhauer, Dostoiévski, Vitor Hugo e toda a rapaziada. Hoje me dedico homeopaticamente a seus contos. Lucidez, trata-se de lucidez a eloquência de Machado.

Só egoístas.

A multiplicidade das relações...

Um amigo disse-me que hierarquiza suas amizades. Não só as amizades são hierarquizadas, digo eu, como classificadas conforme as aptidões e qualidades do amigo. Qual seria o amigo ideal para discutir a obra machadiana ou a crise econômica mundial? Qual seria o amigo ideal para embriagar-se e passar uma noite de futilidades e papos desnecessários? E um e outro são amigos, um e outro exercendo sua função de amigo (sem esquecer dos que improvisadamente servem a qualquer dos misteres).

De certo modo, os amores também são assim: há os freneticamente lascivos, onde o sexo é a tônica, em que os desejos da carne sustentam os laços afetivos. Há também os lúcidos, onde a consciência do ser do outro gera a identificação, a linguagem comum necessária à efetivação do gostar. E ambos são amores, ambos podendo, ou não, utilizar-se do recurso do outro para se fortalecer.

As amizades são múltiplas e simultâneas, e os amores, perigosamente, também podem ser. Eis uma grande justificativa para o adultério: a incapacidade do outro ser completo. Ou é isso, ou aceita-se a insatisfação, ou se a elimina de vez e procura-se a perfeição em outro porto.

Oh, sim senhores: somos egoístas. Só egoístas.

Subterfúgio

Existem gestos que servem apenas para defender idéias… alheias! Machado de Assis, em seu conto A Herança, demonstra. Perguntada sobre a vontade de casar,

“Eugênia respondeu com um sorriso e baixou os olhos, gesto que podia dizer muita coisa e nada.”

Grande arte a de procrastinar decisões assim, presentemente, dizendo “não sei”, “veremos”, “talvez”. Ou sem dizer, tal qual Eugênia. E curioso é que o interlocutor sempre, sempre tem a visão que a esperança lhe indica — notadamente quando falamos de paixão.

"Considero a crueldade e o assassínio em massa coisas más e desejava que todos concordassem com a minha opinião. Isto não evita que outros desejam tanto a crueldade como o assassínio em massa, tal como demonstra o procedimento de todos os que ocupam posições de mando e da maioria da humanidade."
Bertrand Russel