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Dos pressupostos do macho.

Aos homens não é permitida a ausência da canalhice. Ser cafajeste é pressuposto básico para a competência sexual: os que ignoram tal fato serão bons amigos e bons conselheiros – podem até ser aclamados como os mais legais, inteligentes, probos, competentes, sinceros e carinhosos de todos os homens.

Mas o macho, esse mente. O macho engana e disfarça, disfarça o disfarce positivo necessário à efetivação do coito.

O pior, caríssimo bom homem, é que as mulheres sabem disso. E sempre lhe dirá: “queria estar apaixonada por você. Por que fui logo gostar daquele cafajeste?”. Porque ele é cafajeste, ora. E ela sabe disso. E você, poço de probidade, acalentará ela sempre, e o macho, sempre, exercerá seu papel de macho.

Constatações últimas

- As práticas que influenciam as decisões políticas são mais sujas do que nossa vã maldade desconfia…

- A solidão é um estado de espírito formidável para que o sujeito dedique-se ao trabalho. O bom profissional é o status formidável para que o sujeito encontre uma pequena. Enfim, a solidão leva às pequenas.

- Torcer para o Flamengo e comer quibes em botequins de esquina não fazem tão bem ao estômago.

O anti-social

O anti-social

Perdoem-me, mas diálogos são relações complexas. A incompreensão disto gera conflitos desagradáveis, levando sempre uma das partes a ver o outro como um inconveniente: o verdadeiro anti-social.

Lá está você sentado a esperar a chegada de seu vôo, quando um pulha diz o quanto está frio, que mulheres só querem saber de gastar e que não é fácil criar filhos. E começa a fazer um estudo de banalidades, dissecando as coisas com a (i)lógica genérica da massa. Sim, dizemos com a cabeça e com palavras estéreis – “pois é”, “exatamente”, “oh, sim”…

De quando em quando você, o intolerante, olha para a boca e os dentes do pirata, certamente amarelos e mal cuidados, e sente algo como uma ojeriza. Os sapatos rotos, a coluna encurvada, a barriga com certa saliência lipídica: tudo indica o quão trivial é o indivíduo.

Nesse instante, o cheiro do desinfetante do banheiro é mais atraente, ou mesmo sair para repetir a dose de café. Tudo para subtrair-se ao – verdadeiro – anti-social.

Michel Melamed

Michel Melamed

O poeta Michel Melamed é entrevistado por Marieta Cazarré (UnBTV):

“Endenter o experimental como a busca de originalidade, a busca por uma linguagem própria, por um estilo. A liberdade, enfim. Olhando a História da Arteem retrospectiva, acho que os principais momentos, ou o que se entende como História da Arte, é feito no que se entende em algum momento como experimentação”

Ele fala sobre arte, cidadania etc…

“Em linhas gerais, eu acredito muito, sim, nessa não-linearidade, não porque a linearidade seja ruim, mas talvez haja um predomínio dessa linguagem na maioria das mídias, seja televisão, teatro… A gente sempre, ou na maioria das vezes, tem se deparado com ela (a linearidade). E ela pode ser muitas vezes — eu ia falar a palavra perigosa, porque eu estou com televisão na cabeça. No caso da tevê, por exemplo,ela pode ser duvidosa, porque a linearidade muitas vezes trabalha com persuasão. Então exemplos claros na televisão são uma novela ou um noticiário que está dando um texto e aí passa uma música que sublinha esse texto, com um tipo de enquadramento… Quer dizer,tudo te leva a uma única compreensão”.

Quem clicar na imagem assiste toda a entrevista.

Machado de Assis, o lúcido.

Machado de Assis

Na prosa em Língua Portuguesa, o melhor é Machado de Assis. Na poesia, Fernando Pessoa. Machado escreve como estivesse conversando, de pernas cruzadas, sentado numa elegante cadeira imperial: com as mãos ocupadas, ele segura a xícara de chá em uma, e penteia o bigode usando o indicador com a outra. Com ar de superioridade, ele provoca, sem compromisso com a família e a sociedade, ele ironiza e achincalha.

Machado foi um dos grandes influenciadores em minha educação moral (aos 17 tinha lido todos os seus romances). As Memórias Póstumas são meu Novo Testamento – e, não, Brás Cubas não ressuscitará!

Através dele conheci Schopenhauer, Dostoiévski, Vitor Hugo e toda a rapaziada. Hoje me dedico homeopaticamente a seus contos. Lucidez, trata-se de lucidez a eloquência de Machado.

Só egoístas.

A multiplicidade das relações...

Um amigo disse-me que hierarquiza suas amizades. Não só as amizades são hierarquizadas, digo eu, como classificadas conforme as aptidões e qualidades do amigo. Qual seria o amigo ideal para discutir a obra machadiana ou a crise econômica mundial? Qual seria o amigo ideal para embriagar-se e passar uma noite de futilidades e papos desnecessários? E um e outro são amigos, um e outro exercendo sua função de amigo (sem esquecer dos que improvisadamente servem a qualquer dos misteres).

De certo modo, os amores também são assim: há os freneticamente lascivos, onde o sexo é a tônica, em que os desejos da carne sustentam os laços afetivos. Há também os lúcidos, onde a consciência do ser do outro gera a identificação, a linguagem comum necessária à efetivação do gostar. E ambos são amores, ambos podendo, ou não, utilizar-se do recurso do outro para se fortalecer.

As amizades são múltiplas e simultâneas, e os amores, perigosamente, também podem ser. Eis uma grande justificativa para o adultério: a incapacidade do outro ser completo. Ou é isso, ou aceita-se a insatisfação, ou se a elimina de vez e procura-se a perfeição em outro porto.

Oh, sim senhores: somos egoístas. Só egoístas.

Subterfúgio

Existem gestos que servem apenas para defender idéias… alheias! Machado de Assis, em seu conto A Herança, demonstra. Perguntada sobre a vontade de casar,

“Eugênia respondeu com um sorriso e baixou os olhos, gesto que podia dizer muita coisa e nada.”

Grande arte a de procrastinar decisões assim, presentemente, dizendo “não sei”, “veremos”, “talvez”. Ou sem dizer, tal qual Eugênia. E curioso é que o interlocutor sempre, sempre tem a visão que a esperança lhe indica — notadamente quando falamos de paixão.

O catolicismo é decadente. As igrejas católicas servem de asilo ocasional para alguns idosos incultos. Chegam a dormir nos cultos, os velhos… Quem os substituirá?

Assimetria

A bela e a fera

Entre os erros humanos, crer na simetria das relações é dos mais graves. “Reciprocidade”, dizem. Tolo, o homem apaixona-se e logo procura saber se a dama é mais ou menos paixão que ele. “Que ela sinta, pelo menos, o que eu sinto”, entramos em consenso.

A ciência de aferir sentimentos — intrigante e inexata — mostra-nos muitas explorações e poucos mutualismos. A mulher subjugada pelo macho impávido, o homem-servo da mulher mandona. E não mostrou a história que o capitalismo suplanta o socialismo? O forte sobre o fraco, e não o forte em prol do fraco? Estados Unidos, e não Cuba?

Sábio Quintana:

“Não exijo que esse alguém me ame como eu o amo, quero apenas que me ame, não me importando com que intensidade. Não tenho a pretensão de que todas as pessoas que gosto, gostem de mim…”

Sim, a assimetria geralmente dá certo. Não obstando a existência de românticos idealistas (solteiros) apologistas da democracia libertária.

O inferno, amor.

Todos nós somos, a um só tempo, demônios e vítimas de diabruras. Os nãos com que açoitamos as pretendências alheias ricocheteiam em nossas caras, como tapas de indignidade, como alertas de impotência.

Diabos

Ou o leitor nunca amou uma jovem de cabelos escorridos ao ombro, de sorriso largo e lábios lascivos? Ao declarar-se o apaixonado, ela lhe diz descaradamente: “Não, por enquanto não. O problema é comigo, não com você”.

E quantas dessas descarações já não fizera também o renegado?

Quantos seios túrgidos ansiamos, quantas mãos quisemos segurar em praças públicas em vão. E quantas delas, demônios envergonhados, evitamos. São esses os personagens do inferno dos amantes: simultaneamente diabrados e diabrandos.

"No Museu Dos Vencidos estão reunidos todos os papeizinhos com os discursos de agradecimento não lidos pelos perdedores de todos os prêmios."
Michel Melamed