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Do Envelhecimento

Levar-se pelas águas do cotidiano é arriscado à integridade de qualquer espírito. Eu, quando não tinha que fazer senão sonhar alcançar a intelectualidade, beirava a sensibilidade das convicções minhas e alheias – causa do que se chama “inconformismo” dos jovens. Sim, a nova idade se incomoda porque sente.

Deram-me, então, o que fazer, e sinto cada vez menos. Manter o espírito sem anestesia é tarefa pouco corriqueira, praticada com excelência por aqueles a quem devem ser chamados “artistas”. Ser artista é algo além da execução duma obra de arte: trata-se da questão de (não) formatação do espírito.

Já os normais, como parece me ocorrer, em uma palavra, envelhecem.

A Desgraça

A desgraça do homem surge várias vezes em vida, tal como uma tentação. “Vês? Tudo dá errado, és um incompetente. Aderes logo ao cemitério de espíritos, e vives em cobardia, ou joga tudo ao ar…”, diz a desgraça. Eis a sedução que se nos surge para compor as fileiras da omissão, da indolência.

Carpe Diem? Pfff…

Digam “Carpe Diem” a um faminto, e não terão menos que um assassínio.

Afora os amigos, o homem de espírito carece dalgum interlocutor de certa inteligência uma ou outra vez. Se bem que a amizade pode fazer interseção com a inteligência, mas pode-se discordar menos dos amigos, mesmo que sejam inteligentes.

punch

É desses filmes e novelinhas a ideia de que os amores sempre se satisfazem. Após atalhos e obstáculos, o rapazito encontra finalmente a mocinha, que deixa o galã esbelto e dominante para valorizar o fracote que, vá lá, ainda que seja fracote, ama-a.

Atentem-se os fracotes, já que o amor gosta de se apresentar como um soco no queixo. Certeiro, firme e intenso soco no queixo – principalmente nos vulneráveis fracotes.

Indolência

A indolência é diferente da incompetência, não obstante ambas caminhem de mãos dadas em certos corpos. Conheço indivíduos com anormais talentos, covardemente escondidos por certa indisposição, vontade própria de omissão.

Outros, magros de grandes qualidades, exercem largamente seu não-saber (as repartições estão cheias deles).

No final, o indolente pode ter o mesmo efeito do incompetente, principalmente se eles se confundem. Não querer fazer deixa no mesmo abismo os bons e os maus. A preguiça é o teto e o piso da criatividade humana.

Adultério

O adultério é um dos êxtases da vida, dos mais comentados e desejados pelos comentaristas, futriqueiros. “Ora, botaram cornos no João, saltaram a cerca da Maria…”

Trata-se de um enredo sempre curioso, notadamente para aqueles que são vítimas ou algozes do adultério – e não ignoro os casos em que essas figuras se confundem. Aqui entram os ciúmes, um lobo feroz, mordedor de consciências, que faz sangrar interrogações nos amantes.

Em sendo mulher a protagonista, pior o drama – para o coadjuvante, não para a platéia. Caso desconfie dessa verdade, bobo amante, reflita em outras mãos amparando sua pequena, desabotoando-lhe o vestido, desembaraçando-lhe o cabelo.

Puta! Meretriz! Cadela! A nós, homens, adjetivos menores são dados. Ou do mesmo tamanho, porém sem a densidade daqueles…

O Janota

Hoje, nosso herói é o janota. O janotismo é uma arte caprichosa, própria dos sujeitos, digamos… Originais. Em verdade, todos temos um pouco de janotismo, quando nada nos momentos solitários em frente ao espelho, onde arriscamos os penteados esdrúxulos que, por nós, até aceitaríamos usar, mas que não aprovamos em virtude do pensar alheio.

O janota estréia, ousa, extravaga. Oh, e não o digam que está cafona ou brega, pois ele o condenará de pronto à pecha de mal-cuidado e, certamente, de invejoso – e quase está certo.

E percebam que o ser janota, almofadinha ou dude, não se resume à moda do vestir, pois janotas existem de todas as modalidades. Pensem no político janota, como um grande prefeito vanguardista que decretou o verde como cor oficial das residências e estabelecimentos da cidade que governava.

O janota no comer não come de qualquer modo. Cria engenharias de assalto ao prato, inclusive recusando-se caprichosamente a pôr na boca alimentos que dias antes tinha como boas iguarias. Este é o espírito do janota: enjoado, inventor e incompreensivelmente vanguardista.

Uma bichinha complicada com uma poesia não menos densa.

Que coisa. Não é que esqueci de O Outro, a sete do disco aí de baixo, cantado por Adriana Calcanhoto? Sim, sim… E trata-se de um poema de Mário de Sá-Carneiro musicado por ela, autora da homenagem ao poeta português feita aqui no título.

Ahnm… Sá-Carneiro é para mim um gênio. Prova é seu Caranguejola, que deixo com vocês por hoje:

Caranguejola

Ah, que me metam entre cobertores,
E não me façam mais nada!…
Que a porta do meu quarto fique para sempre fechada,
Que não se abra mesmo para ti se tu lá fores!

Lã vermelha, leito fofo. Tudo bem calafetado…
Nenhum livro, nenhum livro à cabeceira…
Façam apenas com que eu tenha sempre a meu lado
Bolos de ovos e uma garrafa de Madeira.

Não, não estou para mais; não quero mesmo brinquedos.
P’ra quê? Até se mos dessem não saberia brincar…
Que querem fazer de mim com estes enleios e medos?
Não fui feito p’ra festas. Larguem-me! Deixem-me sossegar!…

Noite sempre p’lo meu quarto. As cortinas corridas,
E eu aninhado a dormir, bem quentinho – que amor!…
Sim: ficar sempre na cama, nunca mexer, criar bolor -
P’lo menos era o sossego completo… História! Era a melhor das vidas…

Se me doem os pés e não sei andar direito,
P’ra que hei-de teimar em ir para as salas, de Lord?
Vamos, que a minha vida por uma vez se acorde.
Com o meu corpo, e se resigne a não ter jeito…

De que me vale sair, se me constipo logo?
E quem posso eu esperar, com a minha delicadeza?
Deixa-te de ilusões, Mário! Bom édredon, bom fogo -
E não penses no resto. É já bastante, com franqueza…

Desistamos. A nenhuma parte a minha ânsia me levará
P’ra que hei-de então andar aos tombos, numa inútil correria?
Tenham dó de mim. C’o a breca! levem-me p’rá enfermaria -
Isto é: p’ra um quarto particular que o meu pai pagará.

Justo. Um quarto de hospital – higiénico, todo branco, moderno e tranquilo;
Em Paris, é preferível, por causa da legenda…
De aqui a vinte anos a minha literatura talvez se entenda;
E depois estar maluquinho em Paris, fica bem, tem certo estilo…

Quanto a ti, meu amor, podes vir às quintas-feiras,
Se quiseres ser gentil, perguntar como eu estou.
Agora no meu quarto é que tu não entras, mesmo com as melhores maneiras.
Nada a fazer, minha rica. O menino dorme. Tudo o mais acabou.

Mário de Sá-Carneiro

Brilhante, não?

aa, AA, Aa

Existem indivíduos recessivos e indivíduos dominantes. E, sim, existem aqueles intermediários, tal qual nos ensina Mendel.

Os recessivos são particularmente admiráveis, dada sua escassez e raridade. Não se manifestam com facilidade, e são submetidos ao opróbrio na presença dos dominantes. O sujeito recessivo vive com risos pequenos no canto da boca, olha com desdém para cantos desinteressantes e concorda discordando das manifestações dominantes.

Ora, o dominante. Trata-se do cara espalhafatoso, impositor e efusivo. Não, geralmente não tem razão, ou quando tem deixa de ter pelo modo que a impõe. O mancebo dominante grita e ri com dedo em riste, e sonega tudo que não se volta a si.

Já o intermediário é um e outro em dependendo da ocasião. Um maria-vai-com-as-outras. Uma puta.

Deus deu aos iludidos o monopólio da felicidade.

O tolinho

Sócrates

Discutia com um tolo sobre os grandes homens, quando surgiu a assertiva socrática:

“É preferível sofrer o mal do que fazer o mal”

“Antes de ler isso, já pensava desse modo. Logo, se Sócrates não tivesse existido, eu seria tão filósofo quanto ele”, disse o tonto. Isso é o mesmo que dizer: “Antes de saber as Leis de Newton, já deduzia que as coisas aconteciam do modo que elas afirmam. Logo, se Newton não tivesse existido, eu seria tão físico quanto ele”.

Acontece que até mesmo uma criança da nossa pós-modernidade já teve contato com princípios mais complexos do que os fundamentais descritos por homens como Sócrates e Newton – apesar de ambos terem definido muitas complexidades também. O que aprendemos hoje em moral já está eivado de Sócrates, e o que aprendemos em física está sortido de Newton. Elimine essa base, e o topo ruirá.

É por pensar mais ou menos como nosso tolinho que muitos religiosos não entendem que Cristo não é lá tão pioneiro.

Nota de um professor num diário de escola

Senhores pais: ensinem seus infantes a suportarem injustiças. Todos precisam ter, vá lá, quinze ou vinte por cento de escravo no espírito.

Separata

Tênis

Sim, ingrato leitor, isto aqui vai mal. Das mazelas que acometem o homem consciente, o homem de espírito sensível (não digo o sensível-melodramático, mas o sensível-sagaz), uma das que mais lhe corroem o amor-próprio é perceber-se tragado pelas práticas e ambições vulgares. Oh… sim, sei que os homens conscientes não têm amor-próprio, apenas um senso de autoconservação necessário às suas constatações perversas, como a que agora faço. Mas, como disse, tenho me tornado vulgar, e esses rigores teóricos não me têm apetecido ultimamente.

Por exemplo, estou numa mania reprovável de acumulação de capital. Poucos réis, confesso, mas o suficiente para ter sonhos com um automóvel com dois ou três anos de uso ou um terreninho num lugar onde não corra esgotos. Ter sonhos, repito para os malandros.

Eis que o trabalho vai me levando o tempo, e sempre ouvimos dizer que, se há trabalho, deve haver luxo – cara palavra, cara palavra. Trabalhe, diz o raciocínio corrente, mas não deixe de provar tintos franceses e maltes escoceses.

E as pequenas gostam disso. Tenho uma apaixonada por meus tênis, digo, por mim. Branca, cabelos escorridos e usuária compulsiva de shopping’s. Um pitéu, por assim dizer. Mas, uhn… penso em achar alguma que prefira sapatos italianos.

Enfim, deixemos de lado o charlar. Rio para não espantar de todo os três leitores que me restam. Vou mesmo é com o príncipe da caatinga:

“Eu sou eu, e alguém quer que eu não seja mais eu. Eu resisto em ser eu: não quero ser você. Eu quero ter as minhas coisas, não me tire aquilo que é meu. Eu não quero ter a pátria de ninguém: eu quero ter a minha pátria. Eu não quero conhecer as praias de ninguém: quero estar na minha praia. Eu não quero a comida de ninguém: quero comer o meu pequeno repasto”

Dos pressupostos do macho.

Aos homens não é permitida a ausência da canalhice. Ser cafajeste é pressuposto básico para a competência sexual: os que ignoram tal fato serão bons amigos e bons conselheiros – podem até ser aclamados como os mais legais, inteligentes, probos, competentes, sinceros e carinhosos de todos os homens.

Mas o macho, esse mente. O macho engana e disfarça, disfarça o disfarce positivo necessário à efetivação do coito.

O pior, caríssimo bom homem, é que as mulheres sabem disso. E sempre lhe dirá: “queria estar apaixonada por você. Por que fui logo gostar daquele cafajeste?”. Porque ele é cafajeste, ora. E ela sabe disso. E você, poço de probidade, acalentará ela sempre, e o macho, sempre, exercerá seu papel de macho.

Constatações últimas

- As práticas que influenciam as decisões políticas são mais sujas do que nossa vã maldade desconfia…

- A solidão é um estado de espírito formidável para que o sujeito dedique-se ao trabalho. O bom profissional é o status formidável para que o sujeito encontre uma pequena. Enfim, a solidão leva às pequenas.

- Torcer para o Flamengo e comer quibes em botequins de esquina não fazem tão bem ao estômago.

O anti-social

O anti-social

Perdoem-me, mas diálogos são relações complexas. A incompreensão disto gera conflitos desagradáveis, levando sempre uma das partes a ver o outro como um inconveniente: o verdadeiro anti-social.

Lá está você sentado a esperar a chegada de seu vôo, quando um pulha diz o quanto está frio, que mulheres só querem saber de gastar e que não é fácil criar filhos. E começa a fazer um estudo de banalidades, dissecando as coisas com a (i)lógica genérica da massa. Sim, dizemos com a cabeça e com palavras estéreis – “pois é”, “exatamente”, “oh, sim”…

De quando em quando você, o intolerante, olha para a boca e os dentes do pirata, certamente amarelos e mal cuidados, e sente algo como uma ojeriza. Os sapatos rotos, a coluna encurvada, a barriga com certa saliência lipídica: tudo indica o quão trivial é o indivíduo.

Nesse instante, o cheiro do desinfetante do banheiro é mais atraente, ou mesmo sair para repetir a dose de café. Tudo para subtrair-se ao – verdadeiro – anti-social.

Michel Melamed

Michel Melamed

O poeta Michel Melamed é entrevistado por Marieta Cazarré (UnBTV):

“Endenter o experimental como a busca de originalidade, a busca por uma linguagem própria, por um estilo. A liberdade, enfim. Olhando a História da Arteem retrospectiva, acho que os principais momentos, ou o que se entende como História da Arte, é feito no que se entende em algum momento como experimentação”

Ele fala sobre arte, cidadania etc…

“Em linhas gerais, eu acredito muito, sim, nessa não-linearidade, não porque a linearidade seja ruim, mas talvez haja um predomínio dessa linguagem na maioria das mídias, seja televisão, teatro… A gente sempre, ou na maioria das vezes, tem se deparado com ela (a linearidade). E ela pode ser muitas vezes — eu ia falar a palavra perigosa, porque eu estou com televisão na cabeça. No caso da tevê, por exemplo,ela pode ser duvidosa, porque a linearidade muitas vezes trabalha com persuasão. Então exemplos claros na televisão são uma novela ou um noticiário que está dando um texto e aí passa uma música que sublinha esse texto, com um tipo de enquadramento… Quer dizer,tudo te leva a uma única compreensão”.

Quem clicar na imagem assiste toda a entrevista.

Machado de Assis, o lúcido.

Machado de Assis

Na prosa em Língua Portuguesa, o melhor é Machado de Assis. Na poesia, Fernando Pessoa. Machado escreve como estivesse conversando, de pernas cruzadas, sentado numa elegante cadeira imperial: com as mãos ocupadas, ele segura a xícara de chá em uma, e penteia o bigode usando o indicador com a outra. Com ar de superioridade, ele provoca, sem compromisso com a família e a sociedade, ele ironiza e achincalha.

Machado foi um dos grandes influenciadores em minha educação moral (aos 17 tinha lido todos os seus romances). As Memórias Póstumas são meu Novo Testamento – e, não, Brás Cubas não ressuscitará!

Através dele conheci Schopenhauer, Dostoiévski, Vitor Hugo e toda a rapaziada. Hoje me dedico homeopaticamente a seus contos. Lucidez, trata-se de lucidez a eloquência de Machado.

Só egoístas.

A multiplicidade das relações...

Um amigo disse-me que hierarquiza suas amizades. Não só as amizades são hierarquizadas, digo eu, como classificadas conforme as aptidões e qualidades do amigo. Qual seria o amigo ideal para discutir a obra machadiana ou a crise econômica mundial? Qual seria o amigo ideal para embriagar-se e passar uma noite de futilidades e papos desnecessários? E um e outro são amigos, um e outro exercendo sua função de amigo (sem esquecer dos que improvisadamente servem a qualquer dos misteres).

De certo modo, os amores também são assim: há os freneticamente lascivos, onde o sexo é a tônica, em que os desejos da carne sustentam os laços afetivos. Há também os lúcidos, onde a consciência do ser do outro gera a identificação, a linguagem comum necessária à efetivação do gostar. E ambos são amores, ambos podendo, ou não, utilizar-se do recurso do outro para se fortalecer.

As amizades são múltiplas e simultâneas, e os amores, perigosamente, também podem ser. Eis uma grande justificativa para o adultério: a incapacidade do outro ser completo. Ou é isso, ou aceita-se a insatisfação, ou se a elimina de vez e procura-se a perfeição em outro porto.

Oh, sim senhores: somos egoístas. Só egoístas.

"Insanidade é fazer a mesma coisa uma e outra vez e esperar resultados diferentes."
Einstein