Quando visitei Jaçanã

Das grandes dificuldades da minha infância, lembro-me especialmente de não conseguir prender tampinhas de cerveja nos dedos. Sim, no bar em que vivi boa parte dos meus divertimentos de menino, como um observador e analista das relações boemias, era prática o amassar as tampinhas e prendê-las nos dedos para fazê-los de baquetas, cujo tambor era não mais que a própria mesa de bar, daquelas de metal, salpicadas de ferrugem e cheirando a cerveja derramada.
Enquanto a fraqueza nos dedos não me permitia a façanha, ouvia atento músicas belíssimas, ao mesmo tempo que simples e misteriosas. Entendia pouco do entusiasmo em que eram entoados os versos de amor nos sambões, onde mulheres de quartos generosos dançavam tão generosamente com os ébrios da mesa. Àquela época, de pouco mais ou menos que uma década na idade, entendia pouco ou nada de amor, que os coroas do samba não se fartam de cantar.
Lá conheci Jaçanã, a moradia que Adoniran Barbosa imortalizou em sua canção Trem das 11. Trata-se do hino da boa desculpa que os mancebos dão a suas amadas, que, verdadeira ou falsa, serve à natureza menos dedicada do homem, notadamente o boêmio – o que não significa, de modo algum, minoria de amor (por prova, vejam os cabras que despedem-se de sua dama apenas para chorar a saudade dela num botequim).
Inda hoje ressoa em meus ouvidos o “quais, quais, quais, quais, quais, quais”, o “quaiscalingudum”, e todas essas onomatopéias que Adoniran usou, que tem a mesma origem da minha tampinha amassada: ambas querem suprir a necessidade do instrumento, ante a premente vontade de cantar um saudoso samba. São improvisos que tem um charme ausente na música bem elaborada, sem desmerecê-la, obviamente.
Hoje em dia já não sinto dificuldade em amassar tampinhas, e muitas vezes canto sambas mal entendidos por meninos que chegam ao bar para comprar guloseimas.
Público, Adriana Calcanhoto.

Adriana Calcanhoto é daquelas artistas complexas e prosaicas a um só tempo. O termo “artista”, aqui, está deitado numa rede gozando duma brisa fresca, tão confortável que é confirmá-la nesse status. Constata-se fácil isso quando se ouve Público, um disco de 2000, ao vivo, gravado sobretudo no Rio de Janeiro.
O disco já começa bem, quando após Adriana ser anunciada no palco, ouve-se o eco que me lembra o barulhinho do mar dentro de um búzio, se misturando com os aplausos de recepção da platéia. É a introdução para E o mundo não se acabou, de Assis Valente, primeira faixa do disco, um samba maroto que conta a estória de alguém que se dissipa confiando no fim do mundo. E o mundo não se acabou.
Na três vem Clandestino, de Manu Chao, bem recepcionada na voz melíflua de Adriana, dizendo que Me dicen el clandestino/Yo soy el quebra ley. Na quatro o Remix Século XX, de ninguém menos que Waly Salomão, um poema novo que traz um banquete de pronúncias, indo de Sputinik a Buceta , passando por Sagarana e Parangolé (repetido mixado na última faixa, o Remix fica mais misterioso e moderninho).

Nove: um samba-reggae que é a melhor de todas as apologias feitas a Caetano:
Vamos comer Caetano
Vamos devorá-lo
Degluti-lo, mastigá-lo
Vamos lamber a língua
Isso tudo já é mais do que se quer para tornar Público grande. Mas ainda há coisas como “O nosso amor não vai parar de rolar/De fugir e seguir com um rio” ou “Rasgue as minhas cartas/E não me procure mais” ou mesmo “Entre por essa porta agora/e diga que me adora”, que me trazem sempre suspeitas por suas aparições em novelas da Globo, e são pouco ou muito piegas, mas que tem fundamental função no disco: fazer chorar os amantes.
Estou mais no público de Adriana depois de absorver Público.
Evaldo Gouveia, o brega e a bossa.

Nélson Gonçalves gravou mais de 60 discos, e é o segundo maior vendedor de discos do Brasil, atrás apenas de Roberto Carlos. Certamente ninguém mais lhe tomará o trunfo, consequencia da era dos downloads. Gonçalves vendeu mais de 65 milhões de unidades, o que lhe faz ser um grande cantor, certamente. Não posso dizer que desgosto de suas músicas, mas sua voz forte, com engulhos no final dos versos cantados, me causam uma impressão enjoativa. Acho que João Gilberto, ao surgir como uma alternativa ao modelo vigente à época, sentiu algo semelhante, lançando o chiste “Desafinado” e outras músicas que exaltavam a simplicidade no cantar, com uma extrema complexidade harmônica. Nelson Gonçalves é um licor doce e meloso, João Gilberto é um uísque bem envelhecido.
Mas em 57, quando João lança seu primeiro disco, Nelson já tinha lançado mais de cinquenta. Altemar Dutra, outro ícone da música romântica brasileira, considerado brega por muitos, nem tinha iniciado sua discografia. Em 63 foi lançado seu primeiro disco. Dutra já não tem a voz açucarada de Nelson, e sua atuação como entusiasta do bolero é positiva — apesar de não ser algo novo, uma vez que outros cantores, inclusive o próprio João Gilberto com Besame Mucho, já o tinham feito. Altemar Dutra, como Nelson Gonçalves, é um cantor do povo, com letras simples, mas profundas, música medíocre e vozes exuberantes. (“Medíocre”, sim, pois não se comparará a vanguardismo da Bossa Nova, por exemplo, com o que representam ambos para a MPB).

E é isso que é o brega. Música feita menos para ser complexa artisticamente do que para servir de inspiração às paixões não correspondidas, aos amores incompreendidos, etc. Quem discorda que a ênfase na obra de Nelson Gonçalves, Altemar Dutra, Odair José, Waldick Soriano, Amado Batista e outros tantos seja não a inovação e o experimentalismo musical e sim os corações da massa?
* * *
Por trás desses ídolos populares há um nome pouco famoso, mas responsável por grande parte do que foi produzido na música pop-romântica-brega brasileira: Evaldo Gouveia. Cearense da cidade de Igatu, já compôs mais de 850 músicas, segundo ele próprio, dentre as quais clássicos popularíssmos como “Sentimental Demais”, “Que queres tu de mim”, “O trovador”, “Brigas” e outras tantas que já fizeram chorar inúmeros apaixonados.

Interessante é que Evaldo Gouveia é melhor cantor que Nelson Gonçalves e Altemar Dutra, os dois maiores intérpretes de suas canções. É inevitável ouvir Evaldo e não me remeter às vozes de cantores de botequim, boêmios que frequentavam o bar de meu avô quando eu ainda era criança. Voz cortante e emocionada, bem acompanhada por contra-baixo, violão e piano. Abaixo, algumas citações de Evaldo durante seu show, frases boêmias, bregas e românticas:
“Bebo, não é por vício não é por nada… é que no fundo do copo eu vejo o retrato da mulher amada.”
“Eu tenho gravadas mais de 850 músicas. Para cada mulher que me largou eu fiz seis.”
Gosto da simplicidade de Evaldo Gouveia, que não é cafona, como muitos de seus intérpretes. Sugiro que os leitores apreciem esse vídeo, onde ele canta um pouco de suas principais composições, acompanhado de um público entusiasmado. Ouça e constate que poucos brasileiros nunca se aproveitaram da melancolia dos versos evaldianos.
PS: Quero ouvir uma música de Evaldo Gouveia interpretada por Maria Bethânia. Alguém conhece alguma?
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