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Ah, o poder…

Converso com um amigo que me vem dizer de revolução, igualdade e divisão do poder para a plebe. “Faz-se necessário um grande líder, com a competência de distribuir os quinhões aos miseráveis”. “É certo que as massas não pensam estrategicamente, antes sonham em comer e viver. Por isso, forjemos um grande estrategista, e ele dará vida e justiça ao povo”.

“O impasse, caríssimo” – dizia eu – “é que os grandes líderes sempre pensam estrategicamente, e pensar estrategicamente é uma delícia e um risco”.

Semicorrupção

Um tipo comum de conduta é a semicorrupção, ou corrupção tímida. Em vez de ser um impetuoso malfeitor, o sujeito escolhe omitir-se aqui e ali, negocia propinas de modo bonachão, e dá dois tapinhas nas costas do corrupto de fato – aproveitando os frutos e rejeitando as responsabilidades.

Aliás, esse é o grande grupo de homens: todos nós, de algum modo, somos uns semicorruptozinhos. São exceção os intolerantemente honestos, e os fortemente corruptos, que no final ganham o jogo, sustentados por nossa semicorrupção.

A Milícia

Tenho me eximido de comentar fatos ordinários por aqui, uma medida para atentar contra a rotina e a audiência (oh, que desculpas para a incompetência!). Mas tal é o incômodo com nosso futebol que, vá lá, não é mal deixar por aqui alguns pitacos.

Antes, digo ser admirador dos que sociologicamente galhofam do povo brasiliano por estarem em tempos de Copa assim, tão desnorteados. “O ópio do povo”, “não nos importa o que é de se importar” e conclusões parecidas pipocam por aí, dignas de sincero respeito por parte deste alienado contribuinte das empresas que lucram com o football.

Mas, indo ao ponto, o que nos foi em África do Sul? O argumento primeiro é a convocação: Ronaldinho Gaúcho, Neimar, Ganso. Fosse eu o técnico, estariam lá os três, notadamente o primeiro e o último, criadores da necessária patacoada em campo, opções à altura e até maiores ao branquelo Kaká. Uhn… Diego Tardelli também viajaria comigo.

Mas com os que lá estavam não era impossível conseguir algo mais. Faltara vontade, fome de bola, essas coisas que dizem sempre faltar ao futebol brasileiro perdedor. “Formamos um grupo”, disse o Dunga – que extirpou de minha memória o saudoso anãozinho da Branca de Neve, pondo-se no lugar, enfezado, pedante e (pior!) perdedor. Se o encontro, digo que minhas professoras primárias sempre formaram grupos nas escolas em que estudei, todos eles péssimos em questão de bola.

Em verdade, eis o principal problema dos canarinhos. A tropa se espelhou no comandante. O ato desastrado do Felipe Melo, pré-anunciado e repetido na própria Copa, não obteve a rechaça do comandante, que parece ter propagado seu espírito belicista no grupo. Reclamações, xingamentos, vinganças e outros expedientes similares foram a característica do “grupo”.

Nosso técnico forjou uma milícia, e esqueceu-se de forjar um time de futebol.

Indolência

A indolência é diferente da incompetência, não obstante ambas caminhem de mãos dadas em certos corpos. Conheço indivíduos com anormais talentos, covardemente escondidos por certa indisposição, vontade própria de omissão.

Outros, magros de grandes qualidades, exercem largamente seu não-saber (as repartições estão cheias deles).

No final, o indolente pode ter o mesmo efeito do incompetente, principalmente se eles se confundem. Não querer fazer deixa no mesmo abismo os bons e os maus. A preguiça é o teto e o piso da criatividade humana.

Ode à vagabundagem

A pior vida é a prática, cotidiana. O que decidimos chamar de trabalho é o mais característico fator da superficialidade humana. Tal é o trabalho, que chega-se a imaginá-lo como um Vingador, um Freeza, ou, na falta de um vilão maior, seu próprio chefe.

Vejam, por exemplo, a fórmula do trabalho, e o quanto ela leva-nos ao desespero:

Não digo que seja o desespero alarmante, mas um pior: o desespero ligado à desesperança, que é a mesma coisa. Desesperar é não possuir expectativa de evolução, é a extinção da subjetividade que leva ao sonho, tornando a vida do sujeito uma sucessão de procedimentos mecânicos, burocráticos, automáticos: eis o trabalho.

Sim, sim. Há os peraltas, homens de fibra, que burlam o trabalho, corrompem a rotina das engrenagens que levam a não-sei-aonde. Em verdade, esses não trabalham, seguem o ensinamento d’o elogio ao ócio de modo peculiar.

O Egoísta

Hoje falemos do tipo egoísta, daqueles que vêem em si as razões da engrenagem do universo. Esqueçam o egoísmo como o adjetivo aplicável ao sujeito que deseja tudo para si. Mais adequado ao egoísmo, enquanto qualidade, é aquele mancebo que só vive a si.

Fale com o egoísta, e então ele confirmará toda a sua versão, e até repetirá suas palavras. Mas não queira que o egoísta, em seu casulo impenetrável e eivado de seu próprio eu, sofra qualquer influência do que lhe for dito por outrem.

Se o ego “é a experiência que o indivíduo possui de si mesmo“, o egoísta só possui esta experiência. Não por não ter podido viver outras, mas porque possui algo como um ímpeto ao contrário, já que os ímpetos levam à expressões externas. O egoísta só vive para dentro.

A fila

Fila

A fila é dos mais reprováveis institutos sociais. Não sei se por obrigar-nos à unicidade de objetivos, castrando-nos a individualidade, dizendo “tu queres o que todos querem”, não sei se pela associação às classes sociais menos abastadas (que horror, a fila do INPS!). Sim, porque a fila tem um quê de plebeu, são os esfomeados em consenso para repartir o pão. É a organização dos miseráveis em caminho à esmola.

A fila mostra que os pobres são capazes de unirem-se para dividir a miséria, mas não para derrotar os ricos. Grande expressão da covardia e resignação da massa é a fila.

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"Considero a crueldade e o assassínio em massa coisas más e desejava que todos concordassem com a minha opinião. Isto não evita que outros desejam tanto a crueldade como o assassínio em massa, tal como demonstra o procedimento de todos os que ocupam posições de mando e da maioria da humanidade."
Bertrand Russel