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Nota de Esclarecimento

“O mundo é para quem nasce para o conquistar
E não para quem sonha que pode conquistá-lo, ainda que tenha razão.”

Sim, como já disse inúmeras vezes aqui, tenho projetos para o Café do Dom – on e offline. Acontece que estou num momento de prioridades profissionais, onde me resta pouco ou nenhum tempo para coisas, digamos, secundárias. Ou terciárias, se o ponto de vista for o do leitor.

Nunca acreditei no argumento do tempo. Ou seja, nenhum indivíduo deixa de fazer algo que realmente quer por causa da falta de tempo. Antes, como assumo aqui, a questão é de prioridade.

#cparty (3)

O mundo em rede é fantástico. A colaboração, a horizontalidade, a democratização das informações e conteúdos. Fantástico. Não digo que há igualdade entre as classes no uso desses recursos, louvo antes os benefícios deles, as potencialidades, ignorando, desta vez nossa disparidade social.

A Campus Party, com seus debates simultâneos num ambiente comum, onde os “palestrantes” estão alcançáveis e no mesmo nível espacial que os espectadores, é uma ofensa aos conceitos tradicionais de compartilhamento de idéias, à empáfia de qualquer monopólio de conhecimento.

Qualquer admirador do mundo virtual terá seus ânimos revigorados nesta festa. Novos desafios são impostos, criações novas surgem, interações outras nascem.

#cparty (2)

São Paulo é monocromática. No máximo, varia do cinza ao preto; expressa em tudo uma essência de asfalto, de vigas metálicas, de fumaça. Nem a natureza, a mãe, escapou do véu de falta de cor que derrama-se em São Paulo – o Rio Tietê é preto, o céu é cinza. É nesse mau gosto de Caetano Veloso que está acontecendo a Campus Party. Esta sim, colorida, brilhante, prismática. Os nerds espalham-se pelo Centro Imigrantes de todas as maneiras: deitados, sentados, de pé, de ponta-cabeça. É bonito ver centenas de monitores e gabinetes brilhando num mesmo ambiente — portas abertas a milhões de interações, que, por sua vez, interagem entre si naquele espaço.

Os nerds não são mais os melhores alunos de matemática da escola, caricaturalmente concebidos de camisa por dentro das calças, óculos, e um certo ar de doente mental. Os nerds estão coloridos, sem tipo, gordos, magros, altos e medianos. Pretos e amarelos.

Por aqui baixa-se arquivos rapidíssimo — 80 megabytes em 50 segundos. A comida é variada, as pessoas são bonitas — ou se são feias têm estilo, e os assuntos abordados são interessantes. Dizem que o ano passado foi melhor, mas o de agora me satisfaz.

Voltando ao cinzento paulista, lembro do meu agrado pelo monocromático, pela melancolia do inexpressivo. E vejam: faz frio. Ótima conjuntura para um brinde com café. Café preto: o mesmo preto corintiano — o maior dos times paulistas.

#cparty

Nesta semana estarei em São Paulo, na Campus Party. Vou falar um pouco do ofício aos blogueiros. Aproveitarei para mudar a persona deste blog, transmitindo algo do evento por aqui – impressões, expressões, enfim. Quarta-feira começo. Entendam:

A colaboração como modelo de conhecimento

Em uma iniciativa criada na Campus Party Brasil em 2008 e levada para a Colômbia e Espanha, vamos novamente abrir uma área especial para os blogueiros, proporcionando um grande encontro de conteúdos, tecnologias e experiências em torno desta nova forma de comunicação.

Os autores dos principais blogs corporativos, pessoais, educacionais e jornalísticos estarão integrados em workshops, palestras, oficinas e atividades ligadas ao conhecimento de ferramentas e idéias que movimentam a blogosfera mundial.

É mais ou menos isso. Ah: lá também.

Batalha de enamorados

Ela sentia um prazer malvado em desdenhar. Olhava-me de cima a baixo, com olhos de galhofa, expressando o ridículo que eu era ao lhe querer tão vagabundamente. “Quem você pensa que eu sou?”, dizia depois de uns instantes de esmorecimento dos meus desejos. (Como são inutilmente prazerosas essas pequenas batalhas entre os enamorados!). Com pouco, após um ou dois minutos de cantar da cigarra, o diálogo iniciava-se entre os olhos, todos os quatro entendidos do jogo em que atuávamos.

Ela pegou-me a mão, pôs em seu joelho, e beijou-me. Ao avançar da mão, ela conteve-me. “Canalha”, gritou ainda beijando, sorrindo pelo prazer de negar o que ambos queríamos. “É a última vez que uso saia”.

Na verdade, não foi a última vez.

A Igreja. A grande culpada pela baixa incidência de sexo oral em nossa sociedade… A Igreja!

Desportos domésticos

Em minha infância fui um atleta e tanto – minha casa foi uma espécie de centro poliesportivo onde eu atuava com desempenhos admiráveis nas diversas modalidades possíveis e impossíveis que criava. A que primeiro lembro, pois talvez tenha sido a mais divertida, é o Tênei, esporte que tinha atributos do Tênis e do Vôlei. Do primeiro herdou a bola e as regras de apenas dar um toque nela para lançá-la ao adversário. Do vôlei empregava-se a rede alta e o sistema de pontuação – já que o tênis, esporte metido a besta, possui um sistema deveras complexo e enjoado de pontuar.

O interessante do tênei é seu surgimento espontâneo e adaptativo. O fato de existir uma quadra de tênis vizinha à minha casa, por exemplo, tornou mais fácil a aquisição das bolinhas. Graças aos maus jogadores, e da falta de um alambrado suficientemente alto, choviam bolinhas no nosso quintal em dia de jogo. “O homem da quadra”, como eu e meus amigos que também eram vizinhos daquela fonte milagrosa de bolinhas convencionamos chamar, vinha de vez em quando, após o jogo, perguntar se não caíra alguma em nossos quintais. Como o leitor deve desconfiar (não se questiona os fundamentos da moral infantil) nós negávamos sempre ter visto qualquer bola cadente.

Havia euforia ao ver os refletores ligados, sempre às 19 horas, e apostas várias para saber quem teria um saldo maior naquela noite.

Como se vê, pouco do perímetro de privilégio cabia ao meu quintal – motivo pelo qual perdi inúmeras bolinhas de gude em apostas irracionais e vaidosas, principalmente com George, um sagaz interiorano, matuto, por assim dizer, que veio morar em nossa cidade relativamente grande.

Demonstrada a origem das bolinhas de tênis, passemos a outra nuance que mostra a adaptabilidade do tênei: a rede, que era o portão da minha casa, vinha a calhar nos dias em que meu pai proibia-me de sair de casa. O oponente tinha sua quadra limitada pelo passeio, enquanto a minha tinha o perímetro da garagem. Sim, as quadras tinham tamanho diferente, a garagem era substancialmente maior, o que não impedia as minhas vitórias constantes. Eu treinava muito, como todo bom atleta. Quando sozinho, a parede da garagem era o adversário ideal – o que, salvo a ausência da raquete, me fez inventar o squash, infelizmente depois dele já ter sido inventado.

Em outras oportunidades falarei das corridas de Fórmula Tampinha 1, das escaladas aos montes mangueretes e goiabísticos, da arte marcial com o uso de bastão-vassoura, da corrida de formigas, dos grandes desafios contra as feras Paquito e Chitara…

O caso

Estávamos deitados, a assistir um filme — espanhol, se não erro com a memória. Sobre o sofá, esparramados, misturados, com as pernas entrelaçadas e confundidas. Ela disse-me que o caso não era eu ser bonito, mas o ter estilo. Ela, eu disse, era bela. Mas chamava-me a atenção justamente sua falta de estilo, seus tropeços e desastres, seu jeito de geralmente não saber onde pôr as mãos, em uma palavra, seu desajeito. Eis seu caso.

Ziguezague

Cada homem tem um mundo íntimo personalíssimo, com peculiaridades que vão das mentiras que só servem a si mesmo às verdades que não ousa compartilhar. Observe-se o caso da admiração muda nutrida por pessoas inalcançáveis. Trato de pessoas cotidianas, relativamente próximas, mas que possuem caracteres distintos, superiores. O indivíduo entende racionalmente esta superioridade (a beleza, o número de livros lidos, a conta bancária, enfim), mas nutre certo vínculo afetivo — e distante — àquela espécie de astro, lamentavelmente convencendo-se de alguma correspondência por parte dele. A superioridade do outro é uma verdade inassimilável para nós mesmos, mas o cultuamos, mentindo a si uma correspondência questionável. Desse tipo de ziguezaguear são compostas nossas entranhas psicológicas.

A barriga da mulher

As mulheres acertam quando preocupam-se em não ter a barriga saliente: os homens observam esta peculiaridade. Diferentemente do que ocorre com celulites, estrias e varizes — mais fácil entender a filosofia hegeliana ou a casca de noz de Hawking do que diferenciá-las —, a barriga é fator definitivo da atração feminina. As roupas que deixam a barriga de fora, um advento de épocas recentes, veio acentuar esse caractere da boa fêmea. A barriga é a expressão da saúde sexual duma mulher.

Por ali fica o umbigo, orifício descartado, que serviu apenas à alimentação fetal, tornando-se tão-somente uma cicatriz. Ledo engano. O umbigo é um sinalizador: é ele que avisa a proximidade do sexo, principalmente para o viajante que teve como ponto de partida a boca, e fez uma ou duas escalas pelos seios. “A 25 centímetros”, ele diz. Para acentuar esse mister, foi inventado o piercing, uma espécie de sinalizador refletivo – um chamariz para o mais desatento observador daquele intermédio.

Nossa afirmação inicial não é muito difícil de entender: por que o homem considera a barriga ao escolher sua parceira? Ora, pois é nela que estará guardado seu filho. O ventre da mulher é um grande símbolo da maternidade, e não poderíamos deixar de levá-lo em consideração ao escolher nossa parceira, mesmo que eventual, já que o homem não precisa de muito tempo para gerar um filho (triste realidade, dirão as mulheres).

Ora, mas por que as mulheres também admiram a barriga sarada nos homens? E por que mulheres com barrigas um tanto salientes arrumam parceiros? Primeira: barrigas musculosas são evidências de machos potencialmente mais aptos à caça, à defesa da família, etc. Um estudante de anatomia poderia dizer melhor a influência dum abdômen fortalecido nas nossas tarefas diárias. Quanto às mulheres com alguma protuberância abdominal que conseguem parceiros, podemos dizer que a perpetuação da espécie em si está acima da preocupação com a qualidade dessa perpetuação.

Mas há quem contrarie essas tendências evolutivas, das quais já tratei genericamente aqui, e até prefira as barriguinhas um pouco salientes aos modelos esturricados que se mostram por aí – o que não significa que admirá-los seja algo reprovável.

Next,

"Considero a crueldade e o assassínio em massa coisas más e desejava que todos concordassem com a minha opinião. Isto não evita que outros desejam tanto a crueldade como o assassínio em massa, tal como demonstra o procedimento de todos os que ocupam posições de mando e da maioria da humanidade."
Bertrand Russel