Não somos cordiais uns com os outros por motivos religiosos, ou por mandamento de qualquer força sobrenatural — Deus, Alá, ou John Frum. Somos corteses em nossas relações porque, em não sendo assim, não existiríamos. A lógica da moralidade humana é muito mais uma questão biológica do que de qualquer outra área do conhecimento. E, diga-se logo, toda “bondade” dos homens visa interesses outros que não a bondade per si. A mãe cuida bem do filho, alimentando-o, protegendo-o, para cumprir o papel de preservação de seus genes, e, por conseguinte, de sua espécie. Se sua tataravó deixasse de fazer isso, ela não existiria, ou se qualquer espécie se der esse luxo, provavelmente será extinta.
Entendam: não somos bons para preservarmos nossa espécie, só estamos preservados porque somos bons. Se alguma espécie ousou ser suficientemente má em suas interações internas, não duraram muito, se digladiaram e feneceram. Isso não significa que aquele indivíduo que age conscientemente de modo benéfico apenas para ter um posterior lucro esteja alinhado com esses pressupostos. Ao contrário. O homem normalmente sente prazer em ter amigos, pessoas confiáveis, e é natural que aja em conformidade com esse sentimento: presenteando, convidando para tomar chope, confidenciando intimidades, etc. A resposta natural para essas posturas é a retribuição, também espontânea. A não ser que alguém perceba algum interesse consciente do outro, o que fatalmente acarretará na quebra da cumplicidade – eis uma chance perdida de ajuda mútua.
A regra do jogo é a confiança. Se há interesse secundário, o jogo está sujo, a relação se quebra, menos um amigo para nos ajudar a chegar ao intento evolutivo. Por isso estamos (ou entendemos que estamos) cada vez mais degradados moralmente: as “coisas”, o “capital”, estão sempre por trás das nossas cordialidades, dos nossos afagos e bondades. Só rechaçamos o “interesseiro” porque ele quer algo além do que a natureza nos legou como suficiente e necessário para sobrevivermos.
Dois insumos básicos para manter a estabilidade do homem, enquanto espécie e enquanto indivíduo, são o amor e a paixão. Se a existência humana fosse um automóvel, poderíamos dizer que o amor é o óleo lubrificante, que dinamiza os processos interacionais, diminui os atritos, as incongruências. A paixão é tal qual a gasolina, volátil, combustível, elemento indispensável para as ignições. O amor cria um elo de responsabilidade, afeto e tolerância acima do normal. A paixão é uma doença, uma obsessão necessária para que o ato sexual, a cópula, se consume. Não é difícil achar semelhanças entre um homem apaixonado e um cachorro que percebe uma cadela no cio.
Essas conclusões se tiram da análise de qualquer livrinho de biologia do ensino médio, que trate de evolução, genética, etc. Charles Darwin é o grande descobridor da gênese de nossa moralidade, sendo Jesus Cristo (ou o conjunto de escritores que descreveram sua doutrina moral) o que primeiro a definiu. Cristo nos ensinou o que ela é, Darwin demonstrou de onde ela veio. Além da barba que suas imagens comumente retratam, eles possuem em comum esse relevante vínculo: o estudo da moralidade.