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Ofendido por Russel

Lembro-me da vez em que anunciei a um meu professor, com algum entusiasmo e bastante exibicionismo, a compra dum livro de Filosofia. Bertrand Russel, se não me engano. Eu estava na casa dos quinze, e fiquei irritado e constrangido com sua recomendação: “é bom que não leia filosofia por enquanto. Fique na literatura, depois se lance aos filósofos”. Ora. Quem era ele para julgar a incapacidade, que eu tinha, de entender filosofia? Um professor deve tratar os alunos com presunção de genialidade. E se eu tivesse algo de Mozart, de Newton?

Bertrand Russel

Apesar de ainda hoje concordar comigo mesmo — cabia um “leia para depois discutirmos” —, não deixo de dar razão ao mestre. Certas leituras carecem de alguma maturidade intelectual. Talvez não Russel (que li desafiadoramente e entendi), mas outros tantos autores, inclusive de literatura, que só se fazem entender aos espíritos mais aprimorados.

É possível que eu tenha perdido algo, por exemplo, de Machado de Assis, já que terminei a leitura de sua obra aos 17 anos. Por isso, esporadicamente consulto e releio alguma coisa do maior do Brasil.

Geralmente compro livros descompromissadamente, para ler apenas quando estiver no momento ideal; alguns deles passam dos cinco anos ainda em virgindade na minha microbiblioteca. Talvez eu morra e meus herdeiros, se houver, os leiam antes dos 15. Ou não.

bon appétit

As recomendações da semana (ver menu ao lado):

Música: Little Joy
Cinema: Mar Adentro
Fotografia: Antônio Fonseca
Blog: Desafinado

30(0) dias.

Volto após alguns dias dedicados exclusivamente ao ofício — o que significa ler e fazer o que uma instituição, ou o grupo de pessoas que a representam, quer. Não obstante o moldar-se a isso pareça nos despersonalizar, e despersonaliza, os homens precisam participar de grupos. “Um ser social”, como já disseram.

Importante é que estamos nas férias (esse “estamos” é fruto de algumas entrevistas de jogadores de futebol que tenho assistido, eles insistem em usar a terceira pessoa quando estão tratando de si apenas: “estamos treinando para nos recuperar da lesão”, “fizemos uma cirurgia para curar o problema do joelho”, “quando nós chutamos a bola, o goleiro defendeu”, etc.). E as férias, onde nos vemos com mais atribuições do que nos dias comuns, são passadas sobremaneira no gabinete, à frente do computador, e de algum Gilberto Freire ou Dante Alighieri. Ladeado, obviamente, duma chávena com café.

Está claro que praias e sóis não são meu intuito, apesar duma certa admiração contemplativa que ultimamente esses adventos têm me tomado. Pretendo buscar algum entendimento de cinema, melhorar o preparo físico, arranjar alguma paixão, experimentar algum vinho, enfim. São os 30 dias mais ambiciosos que podem haver.

Os barbudos da moralidade

Não somos cordiais uns com os outros por motivos religiosos, ou por mandamento de qualquer força sobrenatural — Deus, Alá, ou John Frum. Somos corteses em nossas relações porque, em não sendo assim, não existiríamos. A lógica da moralidade humana é muito mais uma questão biológica do que de qualquer outra área do conhecimento. E, diga-se logo, toda “bondade” dos homens visa interesses outros que não a bondade per si. A mãe cuida bem do filho, alimentando-o, protegendo-o, para cumprir o papel de preservação de seus genes, e, por conseguinte, de sua espécie. Se sua tataravó deixasse de fazer isso, ela não existiria, ou se qualquer espécie se der esse luxo, provavelmente será extinta.

Entendam: não somos bons para preservarmos nossa espécie, só estamos preservados porque somos bons. Se alguma espécie ousou ser suficientemente má em suas interações internas, não duraram muito, se digladiaram e feneceram. Isso não significa que aquele indivíduo que age conscientemente de modo benéfico apenas para ter um posterior lucro esteja alinhado com esses pressupostos. Ao contrário. O homem normalmente sente prazer em ter amigos, pessoas confiáveis, e é natural que aja em conformidade com esse sentimento: presenteando, convidando para tomar chope, confidenciando intimidades, etc. A resposta natural para essas posturas é a retribuição, também espontânea. A não ser que alguém perceba algum interesse consciente do outro, o que fatalmente acarretará na quebra da cumplicidade – eis uma chance perdida de ajuda mútua.

A regra do jogo é a confiança. Se há interesse secundário, o jogo está sujo, a relação se quebra, menos um amigo para nos ajudar a chegar ao intento evolutivo. Por isso estamos (ou entendemos que estamos) cada vez mais degradados moralmente: as “coisas”, o “capital”, estão sempre por trás das nossas cordialidades, dos nossos afagos e bondades. Só rechaçamos o “interesseiro” porque ele quer algo além do que a natureza nos legou como suficiente e necessário para sobrevivermos.

Dois insumos básicos para manter a estabilidade do homem, enquanto espécie e enquanto indivíduo, são o amor e a paixão. Se a existência humana fosse um automóvel, poderíamos dizer que o amor é o óleo lubrificante, que dinamiza os processos interacionais, diminui os atritos, as incongruências. A paixão é tal qual a gasolina, volátil, combustível, elemento indispensável para as ignições. O amor cria um elo de responsabilidade, afeto e tolerância acima do normal. A paixão é uma doença, uma obsessão necessária para que o ato sexual, a cópula, se consume. Não é difícil achar semelhanças entre um homem apaixonado e um cachorro que percebe uma cadela no cio.

Essas conclusões se tiram da análise de qualquer livrinho de biologia do ensino médio, que trate de evolução, genética, etc. Charles Darwin é o grande descobridor da gênese de nossa moralidade, sendo Jesus Cristo (ou o conjunto de escritores que descreveram sua doutrina moral) o que primeiro a definiu. Cristo nos ensinou o que ela é, Darwin demonstrou de onde ela veio. Além da barba que suas imagens comumente retratam, eles possuem em comum esse relevante vínculo: o estudo da moralidade.

Sabem? O intelectual não se dá com qualquer tipo. Conversar com indivíduos que memorizam toda a escalação do Corinthians, por exemplo, é sofrivelmente maçante — apesar de culturalmente todo brasileiro precisar dum posicionamento futebolístico para, digamos, nutrir as pessoas com quem se relaciona de alguma vulgaridade.

À prova

Vocês sabem como é… semana de estudo voltado às provas. Sem entrar no mérito da cretinice dessas avaliações, digo que estou um tanto quanto empanturrado de trabalho e estudo – e leituras, e devaneios. Pouco tempo sobra-me, por exemplo, à vadiagem: poder beber, transar e ganhar dinheiro na mesma época da vida é impossível, dizia meu avô.

Mas estarei aqui em breve, vomitando os dois ou três textos que pululam em minha caixa craniana neste momento…

Ração ao ego

Concordar, paradoxalmente, é a melhor forma de se desvencilhar dum indivíduo enfadonho e estulto. “Ah… ontem eu fui na balada e fiquei com Ana, aquela loira gostosa, lembra?”. Um sinal afirmativo com a cabeça (quem é Ana?) e um risinho de canto-de-boca é suficiente para satisfazer o ego do infeliz. Se não funcionar, algo como “você é o cara!” certamente o deixará contente e espiritualmente alimentado.

Consciência de charuto

Da poltrona cáqui já desbotada de sua sala, fumou um charuto em homenagem à paixão que lhe destituíra o tão caro cotidiano-tédio (a paz trivial da vida, afirmava, era o melhor estado de espírito possível). Naquele momento, era a vez de se destituir dela – ou melhor, foi à busca da consciência de que as paixões são doenças, algum vírus passageiro.

Toda consciência é uma ou mais concepções perenes num indivíduo, o que significa dizer que a paixão se apresentava para ele como um erro proposital, uma entrega burra a uma mulher certamente menor que sua projeção apaixonada. Tragava e ria de si:

“Ridículo. Caralho… eu sou ridículo”.

O cientista.

Se há um sujeito a ser admirado, esse é o cientista. Não o leigo instruído, com suas suposições falaciosas e discursos infundados. Refiro-me ao racionalista e à sua empáfia – notadamente um ser superior aos crentes desavisados. O cientista, e todas as suas questões insolucionadas, é o homem que salva-nos da vulgaridade comum, e nos apresenta alguma sofisticação, alguma elegância. Curvo-me, com um sentimentozinho de impotência, ao cientista.

bon appétit

As recomendações da semana (ver menu ao lado):

Música: Arnaldo Antunes – Ao vivo no estúdio
Cinema: Modern Times
Fotografia: LIFE photo archive hosted by Google
Blog: Not Tupy

"Considero a crueldade e o assassínio em massa coisas más e desejava que todos concordassem com a minha opinião. Isto não evita que outros desejam tanto a crueldade como o assassínio em massa, tal como demonstra o procedimento de todos os que ocupam posições de mando e da maioria da humanidade."
Bertrand Russel