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Consciência de charuto

Da poltrona cáqui já desbotada de sua sala, fumou um charuto em homenagem à paixão que lhe destituíra o tão caro cotidiano-tédio (a paz trivial da vida, afirmava, era o melhor estado de espírito possível). Naquele momento, era a vez de se destituir dela - ou melhor, foi à busca da consciência de que as paixões são doenças, algum vírus passageiro.

Toda consciência é uma ou mais concepções perenes num indivíduo, o que significa dizer que a paixão se apresentava para ele como um erro proposital, uma entrega burra a uma mulher certamente menor que sua projeção apaixonada. Tragava e ria de si:

“Ridículo. Caralho… eu sou ridículo”.

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"Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido."
Álvaro de Campos