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não é de todo inútil o diagnóstico das disparidades num casal. “ele é assaz belo para ela”, ou “muito mais inteligente ela do que ele”, arrematado por “não se merecem”. conheço alguns episódios que, de fato, isto se deu – para não dizer que vivi um ou outro.

Choro com uma facilidade ímpar, como uma mulherzinha, admito. Qualquer manifestação de admiração ao belo, ou mesmo declarações viscerais* fazem-me ir às lágrimas. Copiosamente até, como no caso da leitura de Gabriel García Marquez, em Cem anos de solidão. Ou em Menina de Ouro, de Clint Eastwood. A última grande-emoção-que-me-fez-chorar foi em quando a jornalista desabafou: a seleção brasileira retomou o futebol arte!

“Mulherzinha”, dirão por si só meus leitores, sem meu incentivo, mas vejam a massa se importando com a arte em lugar do resultado e entenderão. E olhem que não faço praça de bonzinho – não cedo centavos a pedintes, por exemplo, salvo aqueles que executam malabarismos em semáforos.

No fim, ser chorador até ajuda o homem com as mulheres, o homem cafajeste, naturalmente, o que não penso ser meu caso.

*Adjetivo muito empregado por críticos literários e magarefes.

- Mãe… Por que o trabalho intelectual tem sua fome específica? Dá cá uma roedeira, um tremilique miserável.

- Uhn, e eu sei? Só sei que estás com uma cara sincera de esquiúpe!

Bigodes

Quando dois velhos amigos se encontram há prazer em comentar reminiscências que para outros, ou até para eles mesmos isoladamente, seria algo enfadonho e fora de ritmo. Joaquim e Bino fazem isto agora, rindo exacerbadamente dos dias em que levantavam as saias das pequenas e iam-se correndo para o banheiro do colégio. Peraltices, peraltices…

“Conta-me, sujeito, o que fazes com tão largos bigodes”, indagava Bino. “Eu, Bino, estou de trabalhador no governo, lento como vem a calhar a um trabalhador do governo e ortodoxo como cabe a um homem com bigodes”. Bino sorriu com a autocrítica de Joaquim, e falou de si.

“Continuo a levantar saias, meu bom. Vivi um tempo em França, um outro em Moçambique, e voltei ao Brasil num surto de banzo”. “Sem dúvida, há mulher nesse teu ciganismo…”, soltou Joaquim. “Oh, e como…”, riu Bino.

Depois de mais duas ou três palavras, e alguns “marquemos para nos ver com calma”, “tu estás mais magro”, “como andam fulano ou cicrano”, e expressões equivalentes, despediram-se. No futuro, Joaquim elegeu-se deputado, nem bom nem mau, escondido em dois mandatos, tempo suficiente para ganhar o necessário e recolher-se como fazendeiro. Já Bino, após saias e saídas para horizontes novos, resolveu criar bigode – sem a lentidão de Joaquim, haja vista não ter conseguido um cargo no Governo.

Ah, o poder…

Converso com um amigo que me vem dizer de revolução, igualdade e divisão do poder para a plebe. “Faz-se necessário um grande líder, com a competência de distribuir os quinhões aos miseráveis”. “É certo que as massas não pensam estrategicamente, antes sonham em comer e viver. Por isso, forjemos um grande estrategista, e ele dará vida e justiça ao povo”.

“O impasse, caríssimo” – dizia eu – “é que os grandes líderes sempre pensam estrategicamente, e pensar estrategicamente é uma delícia e um risco”.

Carpe Diem? Pfff…

Digam “Carpe Diem” a um faminto, e não terão menos que um assassínio.

Semicorrupção

Um tipo comum de conduta é a semicorrupção, ou corrupção tímida. Em vez de ser um impetuoso malfeitor, o sujeito escolhe omitir-se aqui e ali, negocia propinas de modo bonachão, e dá dois tapinhas nas costas do corrupto de fato – aproveitando os frutos e rejeitando as responsabilidades.

Aliás, esse é o grande grupo de homens: todos nós, de algum modo, somos uns semicorruptozinhos. São exceção os intolerantemente honestos, e os fortemente corruptos, que no final ganham o jogo, sustentados por nossa semicorrupção.

Almas Mortas

Li Almas Mortas, de Nikolai Gógol. O tal do Tchítchicov, herói da trama, é tão malandrão que até o leitor torce por suas indignidades. Trata-se de um ambicioso e ardiloso sujeito, sempre pilhado pelos desencontros da vida, fazendo-o perder e ganhar tudo ciclicamente, tal qual o jogador de cassino.

Por ter parte do manuscrito original queimado, Almas Mortas tem algumas descontinuidades, mas não deixa de ser boa obra, com a ironia que investe contra a corrupção e o provincianismo do povo russo – um correspondente um tanto mais frio do povo brasileiro. Ri-se um tanto e reflete-se um pouco com Gógol, não obstante a obssessão pela discussão da pátria, o que acaba deixando o romance menos universal.

partimpim 2

Ouvi todo o Partimpim 2, de Adriana Calcanhoto. Disco de alto nível, mais um acerto dum dos destaques do que se faz de música hoje no Brasil. Trenzinho Caipira e Bim Bom, dois clássicos de Villa Lobos e Tom Jobim, respectivamente, estão belissimamente repaginados. Bim Bom está em formato samba-reggae. Lindo.

Ah… Não deixem de ouvir e se entusiasmar com o refrão de Menina, menino.

Se cai o lenço de madame, lanço-me para salvá-lo de qualquer possível tragédia entre o chão e vossos dedinhos…

"Considero a crueldade e o assassínio em massa coisas más e desejava que todos concordassem com a minha opinião. Isto não evita que outros desejam tanto a crueldade como o assassínio em massa, tal como demonstra o procedimento de todos os que ocupam posições de mando e da maioria da humanidade."
Bertrand Russel