Clarice Falcão

moça adequadamente exagerada. timidamente ousada. uma artista, enfim.
A apreciação minuciosa do mundo não o torna melhor. Ser um eficiente observador não é ser um eficiente operário da vida. A vida, e todas as suas implicações, continua a ter buracos, depressões, ranhuras e erosões independentemente da contemplação dos mais perspicazes olhos. Mija, de Poetry, do alto da sua senilidade, demonstra esta (não) relação entre a potência do olhar versus a consistência da existência.
Morrer é uma atividade difícil, embora a única verdadeiramente geradora da vida. Morre-se para privilegiar o vácuo, e a ocupação para uma próxima morte. Eis a vida.
Edward Scissorhands é uma paródia da pusilânimidade. Um sujeito que que vive confortavelmente isolado em virtude de certa anomalia: mãos de tesoura. Poderia usá-las como armas, diriam uns, mas é justamente esta força que o torna recluso, afastado, tímido. Provocar ferimentos apenas por acaso, descuido. Em todo o filme, não há sequer um momento em que Edward usa suas mãos como arma. Um pusilânime.
Assistir Dexter tem sido uma boa experiência moral e psicológica: um sujeito ensinado a não sentir através da didática de um grande sentimento. A álgebra que se expõe ali mostra que as emoções são inversamente proporcionais: quanto maior a paixão, maior o desprezo que se lhe sucede. Quanto maior o abalo íntimo, mais intimamente blindado esstará o sujeito. Trata-se de questão complexa, de fato, mas não é demais perceber que cada um exerce seu lado Dexter ao tempo em que vai sofrendo tragédias íntimas. Uns mais, outros menos.
“Felizmente, ainda acredito em conto de fadas, e minha estória terá um final feliz. Te desejo tudo de bom e, acredite, chegou o final – e se não deu certo é porque não era para ser. Ninguém tem culpa.”
Qual, o sucesso… O sucesso é nada além que uma estratégia de vida, um meio mais fácil de sobrevivência: tenha o sujeito sucesso e terá suas presas mais facilmente vulneráveis, afinal, ninguém desconfia de quem se lhe parece conhecido.
Banhar-se em trivilidades, dedicar-se a cotidianices, abraçar a rotina. Expediente dos que tentam negar as grandes dores, evitar a intensidade de certas perdas ou expectativas.