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Clarice Falcão

moça adequadamente exagerada. timidamente ousada. uma artista, enfim.

Se eu disser foi por amor que eu invadi o seu computador
Você pega um avião?
Se eu contar de uma só vez como eu achei sua senha do cartão
Você foge pro Japão, esse verão?

Eu queria tanto que você não fugisse de mim
Mas se fosse eu, eu fugia.

E se eu contar como é que eu me senti ao grampear seu celular
Você vai numa DP?
E se eu mostrar o cianureto que eu comprei pra gente se matar
Você manda me prender no amanhecer?

A apreciação minuciosa do mundo não o torna melhor. Ser um eficiente observador não é ser um eficiente operário da vida. A vida, e todas as suas implicações, continua a ter buracos, depressões, ranhuras e erosões independentemente da contemplação dos mais perspicazes olhos. Mija, de Poetry, do alto da sua senilidade, demonstra esta (não) relação entre a potência do olhar versus a consistência da existência.

férias às férias – porque ninguém é de nuvem.

não se trata de sexo. se trata de dominação.

Minha voz, minha vida
Meu segredo e minha revelação
Minha luz escondida
Minha bússola e minha desorientação

Morrer é uma atividade difícil, embora a única verdadeiramente geradora da vida. Morre-se para privilegiar o vácuo, e a ocupação para uma próxima morte. Eis a vida.

palavra do dia: desassossego.

Um clichê: “Não confie em quem lhe mente. Não minta para quem confia.”

 

Mãos de tesoura

Edward Scissorhands é uma paródia da pusilânimidade. Um sujeito que que vive confortavelmente isolado em virtude de certa anomalia: mãos de tesoura. Poderia usá-las como armas, diriam uns, mas é justamente esta força que o torna recluso, afastado, tímido. Provocar ferimentos apenas por acaso, descuido. Em todo o filme, não há sequer um momento em que Edward usa suas mãos como arma. Um pusilânime.

Sentimentos catequisados. Ou melhor, esqueçam.

palavra do dia: noite

Dexter

Assistir Dexter tem sido uma boa experiência moral e psicológica: um sujeito ensinado a não sentir através da didática de  um grande sentimento. A álgebra que se expõe ali mostra que as emoções são inversamente proporcionais: quanto maior a paixão, maior o desprezo que se lhe sucede. Quanto maior o abalo íntimo, mais intimamente blindado esstará o sujeito. Trata-se de questão complexa, de fato, mas não é demais perceber que cada um exerce seu lado Dexter ao tempo em que vai sofrendo tragédias íntimas. Uns mais, outros menos.

Carta de amor para um ano novo

“Felizmente, ainda acredito em conto de fadas, e minha estória terá um final feliz. Te desejo tudo de bom e, acredite, chegou o final – e se não deu certo é porque não era para ser. Ninguém tem culpa.”

Qual, o sucesso… O sucesso é nada além que uma estratégia de vida, um meio mais fácil de sobrevivência: tenha o sujeito sucesso e terá suas presas mais facilmente vulneráveis, afinal, ninguém desconfia de quem se lhe parece conhecido.

Banhar-se em trivilidades, dedicar-se a cotidianices, abraçar a rotina. Expediente dos que tentam negar as grandes dores, evitar a intensidade de certas perdas ou expectativas.

Queixo-me às rosas,
Mas que bobagem
As rosas não falam

tamborim. rebolo. repique. timbau. pandeiro. tantan. reco-reco. cuíca.

"No Museu Dos Vencidos estão reunidos todos os papeizinhos com os discursos de agradecimento não lidos pelos perdedores de todos os prêmios."
Michel Melamed