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Existem indivíduos recessivos e indivíduos dominantes. E, sim, existem aqueles intermediários, tal qual nos ensina Mendel.

Os recessivos são particularmente admiráveis, dada sua escassez e raridade. Não se manifestam com facilidade, e são submetidos ao opróbrio na presença dos dominantes. O sujeito recessivo vive com risos pequenos no canto da boca, olha com desdém para cantos desinteressantes e concorda discordando das manifestações dominantes.

Ora, o dominante. Trata-se do cara espalhafatoso, impositor e efusivo. Não, geralmente não tem razão, ou quando tem deixa de ter pelo modo que a impõe. O mancebo dominante grita e ri com dedo em riste, e sonega tudo que não se volta a si.

Já o intermediário é um e outro em dependendo da ocasião. Um maria-vai-com-as-outras. Uma puta.

um belo sujeito

Cauby Peixoto

“Passo o dia em casa me ouvindo” – Cauby Peixoto.

Castanhas em lugar das nozes.

A Páscoa é a festa do renascimento, não? Sim, creio que sim. Em não sendo hoje o renascimento, não há que se falar em retomada da literatura que se faz (?) aqui. Antes, estamos no Natal, e talvez fosse melhor começar o que nunca se iniciou, nesta aurora sem dia.

Em termos de Natal, o Peru vai bem, naturalmente se acompanhado de algum Chardonnay. (Cuidem-se contra perus gigantes, desses de cento e trinta a cento e cinquenta contos, dizem que tal robustez é hormonal, daí os cânceres que nos acometem nestes tempos).

Mas enalteço a ceia, e o confraternizar com as tias velhas. Como vêem, estou mais popularesco ultimamente, o ano corrente foi um impropério às minhas pretensões intelecto-culturais, ao tempo em que aprendi e usufruí da promiscuidade burguesa. Enfim, me tornei um sujeito mais boa-pinta.

Oh… um Natal Feliz a todos.

Post Scriptum: prefiram castanha de caju assadas em lugar das nozes – que têm gosto de barata assada.

Marca Cristã

Mexia, em Lei Seca:

Além da metafísica, conservo uma marca genética cristã: não aceito um inquestionável domínio do mais forte sobre o mais fraco. Não há regras «naturais» inevitáveis. A civilização contraria o que a natureza determina. Através da ética, por exemplo. E a minha ética é que os homens são desiguais mas têm igual dignidade. A dialéctica do senhor e do escravo pode ser muito inteligente e dar muita ponta, mas é intrinsecamente iníqua.

Vanguarda

Vanguardado Ryot IRAS, no Inagaki.

Deus deu aos iludidos o monopólio da felicidade.

O tolinho

Sócrates

Discutia com um tolo sobre os grandes homens, quando surgiu a assertiva socrática:

“É preferível sofrer o mal do que fazer o mal”

“Antes de ler isso, já pensava desse modo. Logo, se Sócrates não tivesse existido, eu seria tão filósofo quanto ele”, disse o tonto. Isso é o mesmo que dizer: “Antes de saber as Leis de Newton, já deduzia que as coisas aconteciam do modo que elas afirmam. Logo, se Newton não tivesse existido, eu seria tão físico quanto ele”.

Acontece que até mesmo uma criança da nossa pós-modernidade já teve contato com princípios mais complexos do que os fundamentais descritos por homens como Sócrates e Newton – apesar de ambos terem definido muitas complexidades também. O que aprendemos hoje em moral já está eivado de Sócrates, e o que aprendemos em física está sortido de Newton. Elimine essa base, e o topo ruirá.

É por pensar mais ou menos como nosso tolinho que muitos religiosos não entendem que Cristo não é lá tão pioneiro.

Talvez não seja mais do que o meu sonho…
Esse sorriso será para outro, ou a propósito de outro
Loura débil…

Álvaro de Campos

Nota de um professor num diário de escola

Senhores pais: ensinem seus infantes a suportarem injustiças. Todos precisam ter, vá lá, quinze ou vinte por cento de escravo no espírito.

À louca

Sim, caros: tenho me ausentado disto aqui. Me surpreende que os sete leitores que me restam não tenham abdicado de, diariamente, passar o indicador nos cantos empoeirados deste imóvel e sujar-se com o pó ralo que ainda resta por aqui. Que tem me acontecido?

Naturalmente, o ofício me consome, afinal, ao jovem de tipo – ou de cabresto, dizem uns – não é dado o direito de charlar. Ao mesmo tempo, leio pouco, e escrever é proporcional à leitura, pelo menos a escrita vulgar como a que aqui estamos acostumados. Enfim, alieno-me, e isso não é ser infeliz ou coisa que o valha, já que a alienação é pressuposto da plenitude.

Uma boa é que estou empolgado com uma pequena. Não é dessas de shopping ou de balada, como dizem, mas tem o espírito, ahn, digamos, livre. É ruiva e/ou morena, com variações louras. Loura louca, diria – louca adorável. Caso o matrimônio ocorra, aviso a vocês sete.

PS: Lembrem-se do que disse o tio Jabor: “A demanda de desempenho traz a angústia da produtividade”. Ou melhor, lembrem de me lembrar.

"Talvez não seja mais do que o meu sonho...
Esse sorriso será para outro, ou a propósito de outro
Loura débil...
Álvaro de Campos