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bon appétit

As recomendações da semana (ver menu ao lado):

Música: Arnaldo Antunes - Ao vivo no estúdio
Cinema: Modern Times
Fotografia: LIFE photo archive hosted by Google
Blog: Not Tupy

Preguiça moral

Às vezes acontece-me ser acometido por algo que se pode chamar de preguiça moral. Tome como exemplo uma fila que algum inconveniente resolve furar, passando descaradamente à frente de quem primeiro esperava. Se arrebatado pela referida doença, ignoro o espertinho, e chego até mesmo a criar certo ódio dos que reclamarem da peraltice.

Os gritinhos cretinos.

Uma competência inata aos seres humanos é o reclamar de sua condição. Ou melhor, dar gritinhos cretinos do tipo “tenho a cabeça doendo” ou “está um calor de matar”, como se a qualquer interlocutor fosse interessante saber desses insignificantes incômodos - até mesmo para quem os sente.

Aí está algo para se levar em consideração: a vítima que todos ensaiamos ser, o deficiente, o mártir. Eis o princípio de funcionamento de, por exemplo, blogs como este, sempre alegando “dores de cabeça”, como a que acabo de descrever.

bon appétit

As recomendações da semana (ver menu ao lado):

Música: Beth Carvalho canta sambas da Bahia
Cinema: The Lord of the Rings
Fotografia: Photos that Changed the World
Blog: Heresia Loira

Paula Berbert

Para lê-la, aqui. Para vê-la, aqui.

Paciência…

Alguns leitores vêm-me reclamar da falta de textos aqui - algo que me deixa com certo incômodo. O fato é que este blog tem como conteúdo primeiro os caprichos de um personagem que vai e vem sem qualquer controle meu. O tal do “Dom”, pode-se dizer, é cheio de manias. Paciência, pois, com ele senhores…

viajar

As viagens, por menos duradouras que sejam, sempre nos cansam. Encarar apenas o horizonte da estrada, as repetitivas placas de sinalização e as faixas do chão da pista nos leva ao desenvolvimento da consciência, e nada mais cansativo do que desenvolver a consciência.

A questão das redes.

Primeiro, e sempre, as pessoas precisaram de água para sobreviver. Depois, as energias (elétrica, eólica, química) se tornaram necessidades básicas que vão além do oferecido pela primitiva água. Caminhamos para algo muito mais complexo e sofisticado: a indispensabilidade da rede virtual.

A disponibilidade de água é uma questão de vida ou morte. A ausência de energia, pelo menos para o cidadão comum, é um obstáculo ao comodismo. Já a falta de rede é um problema de solidão.

gênese

Sou boêmio e machista de criação, e rebelando-se ao que a natureza prevera, meto-me a intelecual.

O tapa do mar

Estou com o vício de visitar o mar ao menos uma vez por semana. Sendo avesso ao hábito do banho em água salgada, o agrado está na contemplação melancólica do ir e vir das águas, do surgir branco da espuma na imensidão negra. Fica claro que isso se dá à noite, uma vez que o sol por demais desagrada-me, e digamos que não seja muito afeito ao suor gratuito.

Aproximar-se do que é gigante faz o homem diminuir-se, e ei-lo fazendo pouco dos seus problemas, pilheriando de suas angústias, galhofando dos seus medos. O mar bate-lhe à cara dizendo: “quem pensas que és, fedelho insignificante?”.

bon appétit

As recomendações da semana (ver menu ao lado):

Música: Maria Rita
Cinema: Closer
Fotografia: Dani Bolina na Revista Sexy
Blog: Contraditorium

O tapado

Jamais fui um grande especialista em conversações, aliás, a introspecção e a análise entediada da conduta alheia sempre fizeram parte de mim. Fico deveras absorto quando saio com alguém que reencontra um amigo de há anos não visto e esta pessoa consegue dedicar-se a mais de dois ou três minutos num diálogo. Eis um dom que não possuo.

Talvez essa idiossincrasia seja negada apenas quando estou apossado de qualquer influência etílica (o diabo, para alguns crentes). Como sabem, sou um boêmio decadente, e a cerveja, uísque ou vinho sempre são um bom remédio para aturar os não-íntimos.

mas não puta.

Há mulheres que podem ser feias e bonitas a um só tempo. É o caso duma minha conhecida.

Cabelos mal tratados, juba bicolor, ruiva e loira. Boca forte, lábios expelidos, dentes retos. Nariz seguro, gordas bochechas.

Suas ancas salientes ressaltam seu porte — talvez o único consenso entre os homens que a observam. Qual uma fêmea reprodutora, muitos a anseiam por este símbolo da portadora de bom colo.

A pessoa não é menos que o físico. Tem o desleixo característico da menina que desafia os meninos, joga bola com eles, quer lhes vencer no pega-pega. Mas copiosamente chora ao ralar o joelho, e derrete-se por tratarem-na por frágil, feminina. É uma mimada.

Sexo fatal, irresponsável, sem cheiros outros que não o de mulher no cio. Seu admirador conserva em si a vontade de tê-la exclusiva, mesmo sabendo-a já possuída por outros.

É daquelas flores criadas em jardim, e que, se se aventuram a cultivá-la no vaso, fenece. É uma menina inconstante, mas não vulgar. Uma mulher pública, mas não puta.

O carro.

O carro é um direto influenciador nas relações viris de disputa entre os homens, algo que as teorias evolucionistas não previram de maneira nítida. Se Darwin estivesse vivo, estudaria os efeitos dum carro rebaixado na perpetuação da espécie, ou mesmo a relação entre o país de origem do carro importado e a quantidade de filhos que um indivíduo gera. Temos esse monstro, com quatro rodas, que rosna e fumega, abrindo suas asas para nos acomodar, como um ente potencializador da masculinidade. Sim, o carro é o verdadeiro símbolo sexual dos nossos tempos.

Ao se observar os carros parando em um sinal fechado este fenômeno se manifesta de modo evidente. A empáfia, o ar de superioridade que o homem-BMW olha para o homem-Fusca é patente, e este se reduz ao fingimento, à simulação de estar sozinho ali. Quantas não foram as multas que têm como causa o desespero dos machos que fogem desta situação vexatória, e que para não submeter-se à superioridade alheia ultrapassam o sinal vermelho?

Oralmente abstinente

Minha dedicação tem sido a tentativa de omitir qualquer opinião oralmente. O debate falado é sobremaneira emotivo, cansativo e desesperado. Geralmente, sai-se bem o dono da melhor expressão, não necessariamente o dono da razão. Mas às vezes é incontrolável o desejo de xingar, por exemplo, os cristãos-tradicionalistas-fundamentalistas.

"Fiz de mim o que não soube,
E o que podia fazer de mim não o fiz.
O dominó que vesti era errado.
Conheceram-me logo por quem não era e não desmenti, e perdi-me.
Quando quis tirar a máscara,
Estava pegada à cara.
Quando a tirei e me vi ao espelho,
Já tinha envelhecido."
Álvaro de Campos