palavra do dia: procrastinação.
Expôs o pescoço como que pedindo o beijo, o lábio que atentasse para aquele calor – por isso pôs o cabelo pendurado na orelha. Teve o que quis: lábios e pontas de língua e dentes, e um pouco de saliva para assentar a penugem do pescoço. A mesma que se manifestava próximo ao umbigo.
As tradições
Às vezes se toma a tradição apenas como aquilo que se faz irrefletidamente e por mera repetição por muitos há muito tempo. É uma possibilidade. Mas a tradição pode também ser uma competente prática ou entendimento: a melhor saída para um problema, o melhor prazer para o tédio, a mais eficiente receita. Por isso, se impôs como tradição.
Há também tradições mistas: se anunciam como algo inócuo, sem sentido ou intenção, mas é a melhor forma de realizar certos objetivos nem sempre confessáveis. Eis as tradições.

o prazer de fazer uma guirlanda de margaridas vale o esforço de se levantar e colher as flores?
Cansam certas cortesias. Certas nobrezas e hábitos, ahn, chiques. De fato, o conceito de chique de logo já é vergonhoso – achar algo chique, praticar algo chique, parece atuar em um campo estranho à realidade. Para o sujeito chique, o chique não existe.
(Palavra torpe, não? “Chique”. Rum)
Pegue cinco doses de morango e misture com três colheres de sopa de melancia. Adicione dois sachês de pitanga demi-azeda (preferencialmente cultivada nos pitangais do sul do Turcomenistão). Bata tudo no ventilador.
aproveitador. aproveita a dor. a pró veta a dor. a proveta da dor. aprove a dor. a prover tá a dor.
escolhemos sempre palavras do dia. música do dia. frase do dia. roupa do dia. foto do dia. filme do dia. nunca letra do dia, pois as letras acabam. acabadas as letras, que serão dos dias? – inda que o artifício de usar maíusculas e minúsculas seja realizado?
sempre isto se atualiza à madrugada: trata-se de um cometimento tão bárbaro e grave quanto os mais graves e bárbaros crimes. homicídio: dos meus pudores intelectuais.
Pieguice sonora
O silêncio é algo impossível, ou pelo menos a substituição de sons intermitentes (o bater do martelo no prego, a gargalhada de um idiota) por sons constantes (o zumbido do ventilador, o sussurrar do vento nas telhas). Talvez o silêncio seja o amor, o barulho, a paixão.







