Ainda não encontrei ambiente mais confortável, severo e fértil que a madrugada. Fria, escura, silenciosa – situação de poucos humanos. Para um indivíduo pouco social, nada mais conveniente.
Desde menor pergunto-me se não será possível que as coisas só existam quando as estou olhando. Neste sentido, o espelho é um bom argumento para entender o contrário, ou talvez seja ele o único acesso à nossa imaginação. Não é à toa que se criou a expressão “espelho, espelho meu” em certa estorinha.
Assombrar-se com tudo é algo que, vez em quando, exercito. Quais foram os animais primitivos que pisaram o chão em que se ergue a mesa da sala?; quais acontecimentos se dão nos miolos das florestas que existem no mundo?; quais pessoas ainda encontrarei por mais um acaso da vida? (serão fundamentais a minha existência?); chegarei aos 70?; estourará a próxima bomba atômica?
Questões inúteis, mas, de certo modo, assombrosas.
Sucedem-se, durante a vida, inúmeras mortes. Bebês, deixamos de não pisar o chão para pisá-lo. Crianças, abandonamos o amor da vizinha, pela necessidade-da-família-viver-em-lugar-melhor. Adolescentes, perdemos o contato com a turma da escola. Adultos, quase professores em mortes, submetemo-nos acostumadamente a diversas perdas próprias e alheias.
E há quem creia que a morte última dói. Tsc.
Viva cada dia como se fosse seu último dia – caso queira pagar os juros por ter gastado tudo o que possuía.
É curioso como os outros nos são tão importantes, ao menos quando vamos tomar certa decisão particular. Seria adequado que soubéssemos o quanto cada olhar de galhofa é circunstancial e, digamos, passageiro. O outro nos censura por cinco segundos, e vai almoçar, nadar no rio e empinar pipa. O sujeito, entretanto, carregará sua decisão para o resto do que chamam vida. Mas como há quem se abrace àqueles míseros e miseráveis cinco segundos…
Ouço Rimsky-Korsakov e lembro-me de como iniciei na apreciação de música erudita – por influência de um professor. Por puro acaso, Korsakov foi o primeiro compositor que me dediquei a ouvir, um russo, contemporâneo de Dostoiévski. Àquela época (minha, não a dos russos), em que ainda se comprava CD’s, foi o único que encontrei na loja. De lá para aqui, não abdiquei da música erudita, sua complexidade e perturbação, o contrário da monotonia anunciada pelos estreitos.

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